Os Lados da Questão

Muitos seguidores de Jesus Cristo, quando confrontados com a questão da atração pelo mesmo sexo (AMS) e os cristãos LGBT, adotam posturas diversas; espero contribuir aqui com uma classificação possível. Um dos autores tomei como ponto de partida em minha pesquisa foi o blogueiro Gabriel, que defende a ética sexual cristã tradicional – e começo fazendo minhas as palavras dele:

Ser “Lado B” não constitui o cerne da minha fé, e não deveria ser o da fé de ninguém. Mas quero analisar quais são as posições possíveis sobre sexualidade, porque acredito nelas, e espero que a análise seja útil.

Neste texto, gostaria de apresentar uma terminologia importada do meio cristão estadunidense – e muito bem esboçada principalmente em alguns posts publicados por alguns blogueiros, em especial o católico Gabriel Blanchard (Mudblood Catholic) e o evangélico Aaron* (Strength of His Might). O leitor brasileiro (e o não-gringo de forma geral) deve ter em mente que há aspectos religiosos e culturais que dizem mais respeito à cultura norte-americana do que a outras, e também que, sendo as postagens originais um pouco antigas, alguns dos nomes citados como representativos podem não ser mais tão relevantes à realidade contemporânea e/ou ao cenário brasileiro, ou que indivíduos e até entidades tenham mudado seu discurso em tempos mais recentes.
Gostaria também de deixar claro desde já que este texto pretende ter caráter informativo, mas não de absoluta neutralidade: eu busquei retratar de forma fidedigna todos os posicionamentos, sem distorcer os que não endosso; mas também, não tentei maquiar problemáticas que enxergo – e assim, a argumentação como um todo oferecida aqui terá um certo viés. Convido você a, sempre que perceber que meu raciocínio está muito tendencioso (e prejudicando o aproveitamento da leitura), contatar-me e fazer sugestões. Com o feedback seu e de outros amados, pretendo ir atualizando esta postagem, bem como ir aos poucos sugerindo outras, para que a conversa seja levada para o alto e avante.

💻 Te sugiro ler este textão no computador. (Não diga que não avisei!)
🌲 Ei-los para vós, ó apressadinhos: os links mais topíssimos dentre todos!
💱 ¿Уou non parla Portugiesisch? Use: DeepL / Google / Microsoft / Yandex / Chrome add-on.
📚 Tentei manter o texto enxuto; o que não coube, foi lá pras notas de rodapé.
📖 Nas citações da Bíblia Sagrada e de outras escrituras, um ponto . separa capítulo e versículo(s).
✨ Quando você vir um ► triângulo no começo de um parágrafo, é porque ele se expande se você clicar/tocar nele (e se contrairá quando você der um novo clique/toque naquela porção).
🧩 As palavras-chave de alguns trechos estão em negrito; quando todo um pensamento for particularmente relevante ou até crucial, ele estará sublinhado ou destacado com marca-texto.
🖱 Um sublinhado pontilhado indica uma explicação suplementar oculta (nada absurdamente essencial), que aparece ao colocar o cursor do mouse em cimaesta função só funfa no computador.
🧮 Sinta-se à vontade para pular as “tabelas” de texto (como esta aqui): elas contêm informações interessantes e esclarecem tecnicalidades; mas se não estiver a fim de ler, pode ignorá-las sem dó.
📚 Tentei manter o texto enxuto; o que não coube, foi lá pras notas de rodapé.
🏴 Acá hay hiperlinks piratas. Se cê diz não à pirataria, então talkei. 😛
🔗 Dei um jeito de colocar “alertas” em alguns dos links potencialmente mais problemáticos, vós haveis de ver – não de vírus de computador, mas conteúdo meio questionável ou que possa servir de gatilho.
📄 Para guardar a versão atual deste artigo como um PDF, tente estes dois serviços. (Obs.: ficarás sem a versão longa, as notas e todas as demais porções contraídas). Para salvá-la completa, acesse num navegador desktop e, depois de expandir todas as seções, dê Ctrl+P ou ⌘P para imprimir.
👀 Há uma tirinha escondida em algum lugar, teje de olhos bem abertos!

Ah, e sabe umas “cruzes” ( ) que aparecem lááá embaixão, na seção de recursos selecionados?

Entonces… inspirado no seu uso na paleolingüística e na notação de xadrez, utilizei arbitrariamente essas “cruzes” e suas variações para indicar o seguinte:

  • ⸶ : cristão, de pensamento bastante conservador;
  • : cristão, de pensamento bastante ortodoxo;
  •  ⸷: cristão, de pensamento bastante progressista;
  • : cristão, dá seu “xeque-mate” numa questão;
  • : vai de encontro ao pensamento cristão.

Este texto contém numerosas notas de rodapé e referências, muitas delas acadêmicas.
Clique na imagem dos livros mais abaixo para ativá-las.

Depois de uma pesquisa exaustiva em inglês, selecionei algumas postagens que listo abaixo (e agora também uma apresentação de slides, montada por David Ingold), e as considero particularmente seminais para a discussão; encorajo os leitores a conferirem-nas (especialmente as duas primeiras) para um tratamento diferenciado da questão – bem como as notas e demais postagens lá citadas (pouse o cursor do mouse sobre eles, sem clicar, para ver os títulos em português; os links curtos do Bitly levam a versões traduzidas automaticamente pelo Google Translate):

Ʋamos contextualizar as coisas e apresentar um resumo das posições cristãs na questão da homossexualidade ou AMS (atração pelo mesmo sexo). A terminologia dos Lados (em inglês, Sides), embora imprecisa e um tanto simplista, é ainda assim útil para oferecer uma visão geral e, portanto, será exposta aqui. Peço desculpas pelas nuances que possam eventualmente passar batido.
As perspectivas observadas podem ser classificadas em quatro grupos, que são denominadas “Lados”: A, B, Y e X. Estes quatro posicionamentos são definidos em função das respostas a três perguntas-chave:

  1. É correto que um cristão mantenha relações homossexuais?
  2. É apropriado que um cristão identifique-se como gay ou LGBT?
  3. É fundamental que um cristão negue a sua atração pelo mesmo sexo?

Sides ABYX – Highly Aaronic

  • Lado A: Deus não condena as relações sexuais, tampouco o romance, entre duas pessoas do mesmo sexo, mas na realidade abençoa essa união se dentro de um relacionamento de amor, fidelidade, compromisso e monogamia (um “casamento” homoafetivo). As passagens bíblicas que parecem ir contra essa interpretação são revisitadas, revisadas e atualizadas diante da realidade atual.
  • Lado B: Deus definiu o casamento como a aliança vitalícia entre um homem e uma mulher, e qualquer ato sexual fora do casamento configura pecado. Assim, quanto à forma como os crentes devem viver sua sexualidade (admitindo para si mesmos serem gay, lésbica, bissexual, etc.; ou hétero), Deus os chama à vocação do celibato, ou então ao matrimônio com uma pessoa do sexo oposto (esse arranjo é por vezes chamado de casamento de orientação mista – no qual cada cônjuge tem uma orientação sexual diferente).
  • Lado Y: Uma pessoa cristã que se acha orientada ao seu próprio sexo baseará e definirá a sua identidade fundamentalmente em Cristo, não na sua sexualidade. Ela deve se afastar de qualquer identificação com tal orientação, sem se deixar definir nem pautar pelas suas atrações – o que implica que deve ou permanecer celibatária ou casar-se heterossexualmente (o casamento, se acontecer, é visto como um resultado possível, não como o objetivo)[1]; e, de forma geral, buscará viver de forma heteronormativa.
  • Lado X: Ter a orientação ou atração sexual, voltada a membros do seu próprio sexo, é uma enfermidade espiritual que obrigatoriamente requer arrependimento e “cura” (que terá como resultado ideal e seu alvo o casamento com um crente do sexo oposto). Assim, quem se alinha com o movimento ex-gay (a letra X e o prefixo “ex-” têm a mesma pronúncia no inglês) defende e é favorável aos esforços para mudar a orientação sexual egodistônica[2] e indesejada, e “restaurá-la” – apesar de a evidência disponível mostrar que estes sejam em geral inefetivos[3][4] e podem até ser danosos[5].

Quanto aos “Ŀados” Ͼ (em três sabores, C1, C2 e C3), podemos simplificar sua conceituação em dizer que representam posições de meio de caminho, em que se aceitam parcialmente ou são apoiadas proposições de outras duas posturas próximas dentre as apresentadas acima, ou que se está incerto sobre algo que as distingue.

Há ainda mais um não representado no gráfico, o “Ŀado” Ѻ (às vezes também é chamado de “Terceira Via”; a letra “O” vem de outro): é uma postura que enfatiza o acolhimento e convoca a igreja a se acalmar e não se dividir por questões doutrinárias na área da sexualidade – freqüentemente mais constatada em cristãos heterossexuais que demonstram interesse pela causa LGBTQIAPN+.


Certo webcrente[6] muito ativo no Twitter, quando perguntado[7], resumiu os quatro Lados principais assim:

(…) Gostaria de saber como você encara a questão da sexualidade, acha que é pecado a consumação do desejo em si? (num contexto com pessoas do mesmo sexo)
(…) Cara, existem vários posicionamentos teológicos sobre isso. Se resume basicamente em: quem não acha que é pecado e beija sim; quem acha que a prática é pecado mas a atração não; igual o anterior mas acha que não pode nem se identificar como bi; e quem crê na cura gay. Eu escolhi um desses mas sigo a estudar a respeito antes de dar uma palavra final. 😉

Se você é do tipo que prefere escutar podcasts, recomendo este episódio do Conflictu, breve e supimpa, em que foram ouvidos cristãos representativos das posições A, C1, B e C2 (já o Lado Y, majoritário no meio protestante brasileiro atual, foi abordado longa e criticamente no episódio seguinte).

Também, a moça cristã curadora do perfil Gálatas 3:28 no Instagram, publicou discord blobemoji aww esta sensacional seqüência de slides em português, ilustrando de forma mui didática os Lados; clique aqui ou na figura abaixo para conferir o post completo.
Concepções Teológicas sobre Homossexualidade

É importante ressaltar que as posições representadas por cada um dos quatro Lados principais, não se traduzem automaticamente neste ou naquele alinhamento político-ideológico, muito menos partidário; as palavras “mais progressista” e “mais conservador”, a priori empregadas de forma reticente pelo blogueiro reformado Aaron* (e também por Gálatas 3:28), servem tão-sòmente para facilitar a visualização e o entendimento do gráfico (que, juntamente com as definições por ele oferecidas, foram reaproveitados acima). O que realmente distingue os Lados não são os partidos e projetos que você apoia, mas sim, a maneira como as suas vivências e expectativas (individuais) interagem com a forma como você lê a Bíblia.

Não se sabe ao certo por que a atração pelo mesmo sexo emerge. Alguns creem que é algo inato e natural para o ser humano, e usam como argumento o comportamento homossexual observado e atestado em várias espécies animais[8].
Hoje em dia acredita-se que há múltiplos fatores em jogo, tanto biológicos quanto de relacionamentos prévios e criação familiar[9] (em inglês esse debate é feito de forma bastante sonora com o jogo de palavras nature × nurture); e, ao que parece, a história de cada pessoa, embora tenha pontos de contato com as de outros, apresenta-se com particularidades individuais que devem ser levadas em conta na hora de sentar pra conversar.
Do ponto de vista teológico, de forma geral há concordância em se dizer que é um subproduto da Queda, evento que afetou todos os aspectos da constituição humana.

Toque nesta caixa para ler um pouco mais sobre as perspectivas católica e protestante.

Na doutrina oficial da Igreja Católica Romana, o Catecismo[10] reafirma a Tradição da Igreja e declara que «os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados» (i.e., encontram-se para além da ordem creacional estabelecida por Deus) – e «não podem, em caso algum, ser aprovados» (§ 2357); mais adiante, é dito que a propensão a «tendências homossexuais profundamente radicadas» é também «objetivamente desordenada» (§ 2358); o Catecismo então fecha recomendando a castidade e o autodomínio, e também as amizades e consagração espiritual (§ 2359).
Uma proposta de abordagem da teologia reformada é que o ser humano possui em si estrutura e direção[11] – das partes que compõem cada pessoa, as suas estruturas (física, mental, emocional, espiritual, etc.) foram originalmente feitas “boas” por Deus, mas às vezes podem encontrar-se direcionadas de formas que o nosso próprio Designer não planejou (uma ilustração possível seria como usar um prato raso para servir sopa).
Assim, cabe a cada indivíduo sujeitar sua vida à vontade de Deus e buscar n’Ele o que é o melhor que posso fazer onde estou (e buscando ser ativamente transformado pelo poder d’Ele).

Є é isso aí. Agora você já sabe o que são os Lados e como eles são definidos. Se preferir, você pode parar por aqui, tu já estás por dentro do básico e principal da terminologia dos Lados; ah, e não te olvides de dar uma boa espiada nos recursos selecionados grinning face with star eyes, logo mais abaixo.
Se, porém, quiser ir mais a fundo nesse nosso bate-papo – e estiver com tempo e paciência de sobra… nós ainda temos muuuito pano pra manga para a nossa conversa! A decisão é sua, basta clicar neste parágrafo. (E senta que lá vem textão!)

Você escolheu a pílula vermelha – e prepare-se para uma overdose. A partir daqui, teremos uma discussão mais detalhada sobre cada um dos Lados, tra(du)zida originalmente a partir do blog do católico romano Gabriel Blanchard – e levada adiante e para além dele, com contribuições minhas e de amigos meus.
E reforço o lembrete: se você quiser acessar as notas de rodapé, precisará antes ativá-las clicando na imagem dos livros lá embaixão.

O Lado A é chamado de “interpretação progressista” das Escrituras, também dito a “teologia inclusiva” (ou ainda, “teologia afirmativa”), ou simplesmente pró-LGBTQ+ (o sinal de mais “+” indica outras configurações de sexualidade e gênero[12][13]). Esta posição está centrada na convicção de que ser homossexual é uma parte moralmente neutra do nosso ser, assim como ser heterossexual, e que cristãos podem abraçar integralmente uma identidade gay. (Se você eventualmente se apaixonar e decidir se unir a uma pessoa do sexo oposto, a explicação é autoevidente: cê era na verdade bissexual![14]) De acordo com esta visão, relacionamentos homotransafetivos sexualmente ativos estão sujeitos a receber as mesmas bênçãos divinas que os de pessoas heterossexuais – geralmente com as mesmas limitações a que estas estão sujeitas, como abstinência antes do casamento, monogamia, fidelidade conjugal, etc. (Nem todos necessariamente aderem a estes, no entanto – e assim, pode ser válido reconhecer a existência de novo espectro dentro desta categoria: o “Lado A sensu lato”, por assim dizer, abrangerá desde aquele alguém que espera com oração, fé e paciência pela sua alma gêmea… passando por quem “fica” e transa com múltiplas pessoas (se necessário com uma ajudinha de Tinder ou Grindr)… hasta, no “liberou geral” no volume máximo, quem declama “consideramos válida toda forma de amor” e de fazer amor, qualquer relação desde que com consentimento mútuo, incluídos também os relacionamentos abertos ou poliamorosos.) As passagens da Bíblia que parecem ser inconsistentes com esta posição (conhecidas em inglês como clobber passages, “versículos do quebra-pau”, em tradução livre – os trechos comumente usados para condenar biblicamente a homossexualidade, com destaque especial para Romanos 1.18-32[15] e Levítico 18.22 e 20.13[16], e também 1 Coríntios 6.9-11 e 1 Timóteo 1.9-10) são consideradas por teólogos do Lado A como tendo sido mal-interpretadas, como se se referissem a situações na antigüidade, distintas das relações homossexuais de hoje em dia, que seriam aprovadas por Deus, dizem eles[17] (enquanto isso, seus delatores xingam tais estudiosos e seus estudos de “revisionistas” ou coisa pior, e por vezes nem mesmo querem considerá-los cristãos). Se você quiser localizá-los, comece buscando pela hashtag #FaithfullyLGBT no Twitter. Alguns representantes de destaque nos países de fala inglesa são: Justin Lee, Matthew Vines, William Loader, Mel White, Julie Rodgers, John Corvino, Scott Dalgarno, Rachel Held Evans, Teresa Hornsby, James Brownson e Daniel Helminiak.

Vou tentar apresentar um pouco mais da argumentação usada pelos que interpretam as Escrituras por um viés mais progressista. O verso de Gênesis 2.18, em que logo depois de crear[18] o primeiro ser humano, Deus diz que «não é bom que o homem esteja só», é citada para ressaltar que a solidão não faz bem a ninguém[19]. Em seguida, passagens que exaltam l’amour são citadas; os mandamentos de Jesus, «ame o seu próximo como a si mesmo» (Mateus 22.39 / Marcos 12.31 / Tomé 1.25[20]) e «amem-se uns aos outros» (João 15.12,17), são recitados, tendo precedência sobre quaisquer outros; 1 João 4.7-21 é outro trecho favorito – e que, na vasta maioria das traduções em português, tanto católicas quanto protestantes[21], recebe o subtítulo «Deus é amor»❤ – frase encontrada nos versos 8 e 16 (e, aproveitando o embalo, os versículos 20-21 são usados contra a discriminação). Finalmente, questiona-se se é justo impedir que duas pessoas se amem só porque são do mesmo sexo! Os textos condenariam atos homossexuais são reinterpretados, e os novos holofotes agora claramente evidenciam o culto aos ídolos dos pagãos como o grande pecado (e, no caso de Sodoma e Gomorra, a falta de hospitalidade)[22]. A história de Israel e da Igreja[23] é repassada minuciosamente à cata de possíveis indícios de indivíduos homossexuais[24]. Há ocasiões em que até mesmo personagens bíblicos são “shippados” para mostrar que houve, sim, relações homoafetivas na Bíblia[25] – um dos supostos “casais” favoritos são Davi e Jônatas[26]; outro poderia ser o centurião romano e seu servo que foi curado por Jesus (vide Mateus 8.5-13 / Lucas 7.1-10)[27]. Em meio a toda esta profusão de publicações que impressionam e às vezes chocam, é possível encontrar releituras do texto bíblico que trazem insights preciosos e inspiradores[28].
Minha avaliação pessoal sobre as falas mais comuns do Lado A, enquanto sigo a conversar bastante com seguidores sinceros de Jesus que defendem posicionamentos assim e continuo a estudar ininterruptamente, é que muitas das tentativas de produzir interpretações bíblicas inclusivas e afirmativas, que tentam expandir o escopo do plano creacional divino original para o sexo, apelam principalmente para os sentimentos do interlocutor e não raro são passionais, motivadas pelos desejos da própria pessoa; e, há um certo temor por parte da ala conservadora quanto a avanços ulteriores, pela criação de brechas teológicas para revisões ainda mais críticas que virão a se imiscuir no meio cristão, no futuro não muito distante – e nos cenários mais extremos, podem acabar por desfigurar o texto bíblico, para que ele diga o que queremos ouvir[29].

O Lado B oferece uma postura mais tradicional. Os aderentes deste grupo tendem a concordar em parte com o Lado A na medida em que acolhem sua condição de atração pelo mesmo sexo[30] (que é diferente do engajar-se no ato homossexual[31]) e creem que se trata de algo moralmente neutro; e a maioria das pessoas do Lado B não vê problemas em se identificarem como LGBTQ+ – chamar-se gay/lésbica/bi/etc.; tampouco em atitudes como sair do armário e celebrar o orgulho LGBT (#pride) com a bandeira arco-íris rainbow flag e unicórnios unicorn, passar horas ao som de divas pop como Madonna, Pabllo Vittar ou Lady Gaga, e por aí vai. No entanto, a pessoa não faz essas coisas por considerar as relações sexuais homo e heterossexual moralmente equivalentes: o Lado B abraça a posição cristã tradicional em questões de ética sexual, de que o casamento é, por natureza, entre um homem e uma mulher[32], e que a intimidade sexual deve ser reservada sòmente para o matrimônio – crença bem resumida na tradicionalíssima frase «castidade na solteirice, fidelidade no casamento». Visto que dois homens ou duas mulheres constituem, por definição, arranjos nos quais não é possível haver o casamento cristão (de acordo com esta visão), a intimidade sexual entre eles(as) é algo errado. Ser atraído(a) exclusiva ou principalmente pelo mesmo sexo, de acordo com esta posição, é um desacerto; mas não um pecado e nem deveria ser tratado como tal, e pessoas não-heterossexuais não devem ser tratadas como cidadãos (ou cristãos) de segunda categoria. Nesta visão, envolver-se sexualmente com uma pessoa do mesmo sexo não necessariamente constitui, por si só, um pecado mais grave que os outros: por exemplo, é coisa muito séria se você trai a sua esposa – mas o xis da questão é você estar traindo a sua esposa, para além do fato de estar fazendo isso com outro homem. Diversos autores do Lado B (com destaque para Melinda Selmys) preocuparam-se de forma especial com os maus-tratos contra LGBTs (homofobia, LGBTfobia) no mundo todo (p.ex., na Rússia e em Uganda), e com o preconceito contra pessoas trans (transfobia) prevalente nos Estados Unidos. Ah, a propósito do assim chamado “Movimento do Lado B” na Gringolândia: em inglês, a letra B é pronunciada igual a bee[33] – e assim o emoji de “abelha”, abelha (Twitter) no Twitter e abelha (Facebook) no Facebook, vem sendo adotado como símbolo – bem como a hashtag #LGBTinChrist.) Uma boa curadoria de recursos em inglês (incluindo livros e podcasts inteiros) é oferecida no website Side B & Chill e na página “Side B Resources” de Ross Neir – para conferir, clique nesta nota[34]. Fique de olho também na mega conferência anual Revoice, em St. Louis, MO. Wesley Hill, David Bennet, Pieter Valk, Bridget Eileen, Grant Hartley, Greg Coles, Nate Collins, Preston Sprinkle, Anna Magdalena, Joseph Prever, Eve Tushnet e Ron Belgau são alguns dos que escrevem ativamente em inglês da perspectiva do Lado B.

Uma forma simplista de diferenciar e enxergar os Lados A e B seria dizer que o primeiro te apoia em namorar quem você quiser, enquanto o segundo mantém que homossexuais devam ser célibes[35]. E embora seja verdade que muitos aderentes do Lado A esperam casar-se, e que muitos do Lado B buscam o celibato, a coisa não é tããão simples assim. Cristãos do Lado B não descartam por completo a possibilidade de um casamento heterossexual; é só que não é uma coisa com a qual sonhamos já que, sabe, o tipo de equipamento ali não é exatamente o da nossa preferência. Caso Deus venha a fazer algo muito especial em nós, e/ou nos apresentar a um alguém muito especial, poderíamos então contrair o matrimônio em heterossexualidade – e esta é de fato a história de alguns no nosso meio; mas nós não ansiamos por isso do mesmo modo que a maioria dos héteros anseia pelo seu futuro casório (e absolutamente não queremos que nós mesmos ou outras pessoas sejam empurrados para o altar, coisa que tem sido uma falha muito visível dentro do movimento ex-gay).
Em contrapartida, ser Lado A não significa que você tem um desejo de se casar maior do que qualquer hétero. Deus chama as pessoas ao celibato independentemente da orientação sexual delas, e crer que o casamento gay é algo bom não é sinônimo de acreditar que seja o que Deus planejou para você. Assim, estar em paz com a própria sexualidade tem igual importância (senão maior ainda) no caso de você ter planos de seguir uma vida celibatária[36] – pois, visto que um casamento homoafetivo também seria uma alternativa tão inocente e boa quanto o celibato, é mais salutar, por definição, ingressar nesta vocação já de posse desse esclarecimento.

Dentre as críticas possíveis e freqüentemente feitas ao esquema proposto, uma delas é que os Lados nada mais são que “posições teológicas” – isto é, expressam o que uma pessoa (ou comunidade de pessoas) acredita ser verdade sobre esta questão – sem que isto necessariamente se traduza na forma como a coisa é concretamente praticada pelos indivíduos.

Aqui, não estamos a falar de fluidez de opinião, de convencer-se que tal perspectiva é melhor do que aqueloutra – e, assim que possível, inteirar da mudança de pensamento[37] aqueles que lhe são próximos e confiam na sua palavra. · Os Lados não são convicções fixas e imutáveis, no nível pessoal. Não. Cada um tem o pleno direito de pensar por si mesmo e, sem soltar da mão de Deus, mudar de rumo. · Neste momento, porém, referimo-nos a pessoas que abertamente defendem isto, mas que em sua vida privada praticam aquilo – o seu “sim” não é sim, e o seu “não” não é não. Enfim, a hipocrisia.


O argumento em prol da tolerância desse tipo de contradição muitas vezes apoia-se na observação de um fenômeno curioso: muitos cristãos julgam prontamente e hipocritamente condenam qualquer pessoa que não se oriente ao sexo oposto, mas ao mesmo tempo não usam de tamanha severidade para com irmãos heterossexuais e suas diversas puladas de cerca – todo tipo de cerca e limite.
Assim, diz-se ser possível e aceitável que: uma pessoa acredite que envolver-se em certas práticas relacionais seja pecado, mas mesmo assim envolva-se ativamente nelas; ou, outra creia que não há problema algum com sua sexualidade, mas mesmo assim ore a Deus pedindo por libertação, vai ver porque tem o anseio por se casar e constituir família: encontramos situações desses tipos, e isto é mesmo compreensível!

Bem, muito embora seja fato que muitos de nós (senão todos) falhamos com mais freqüência do que gostaríamos de admitir, em cumprir com o que entendemos ser o certo, e incorramos em cousas que nas nossas consciências individuais cremos serem pecados (talvez porque botámos mais fé em nós mesmos do que no Deus que forma e transforma)… mesmo assim o cristão procura viver de forma consistente, a alinhar as suas obras com a sua fé. Apesar de passar por tais momentos, cada cristão é chamado a viver de forma plena, busca praticar e anuncia livremente o que acredita com sinceridade ser justo e verdadeiro.
Se por um lado é verdade que nós, cristãos, somos salvos pela graça e não por nossos méritos, também é verdade que nossas ações e atitudes são moldadas porque Deus é conosco, e na medida que nos tornamos mais parecidos com o Deus que é a Palavra, o falar se reflete coerentemente no agir em nosso dia-a-dia.


Ѵale a pena abrir aqui um parêntese para uma breve aula de história: os termos para os Lados surgiram nos primórdios da era da internet num site já falecido intitulado Bridges-Across the Divide (“Pontes para Atravessar o Fosso”, numa tradução aproximada e livre), no final dos anos 90 e início dos 2000[38]. A ideia era estimular o diálogo entre duas posições[39]: os que entendiam o sexo homossexual ser moralmente neutro e em pé de igualdade com o heterossexual (o “Lado A” – imbuído da convicção que Deus abençoa uniões homoafetivas); ou não, sendo algo moralmente errado e não aprovado por Deus (o “Lado B” original – que nessa primeira definição englobava também os Lados X e Y, cujos contornos emergiriam depois). Posteriormente, os termos Lado A e Lado B foram adotados e amplamente utilizados (e popularizados) pela Gay Christian Network ou GCN, de natureza ecumênica e fundada em 2001 por Justin Lee e que, em seu fórum de discussão interno, abria espaço para ambas as posturas bem como para os indecisos (às vezes apelidados de “Lado C”) – embora, historicamente, a maioria dos membros sempre tenha sido Lado A. Justin convidou seu amigo Ron Belgau para escrever uma defesa por escrito do Lado B, e publicou-a ao lado da sua, em prol do Lado A, numa página dentro da GCN intitulada “The Great Debate” (“O Grande Debate”)[40]. (Em anos recentes, depois da saída primeiro de Belgau e finalmente do próprio Lee, o site sofreu uma repaginada e foi renomeado Q Christian Fellowship ou QCF – e, nesta nova encarnação, mostra-se, na prática, ainda menos receptivo aos aderentes do Lado B[41].) Bem… foi nas discussões da antiga GCN, não sem certo tom de desdém, que seus membros começaram a se referir ao movimento ex-gay como o “Lado X”. 😐

O apelido pejorativo “Lado X” designa o pensamento ex-gay (em inglês, a letra X tem a mesma pronúncia do prefixo “ex-”, /ˈɛks/ – como em “Xbox”) por trás dos esforços de terapia reparativa ou reintegrativa, e de reorientação sexual e reversão do “homossexualismo”. O que se crê aqui é que, longe de ser moralmente neutra, a atração pelo mesmo sexo é por si só uma coisa pecaminosa e nociva (alguns até veem nela uma “maldição hereditária” ou doença espiritual![42]), e que o cristão é o responsável por buscar a mudança[43] – que aqui não é vista como uma opção, mas como uma obrigação do crente. Abraçar qualquer identidade LGBTQ+, incluindo o uso de termos como “gay” ou “lésbica”, bem como assumir publicamente uma orientação que não a heterossexual, constituem posturas que são tipicamente combatidas pelo “Lado X”: a forma como a pessoa enxerga a si mesma é considerada um fator tão importante no processo de cura quanto a própria transformação das atrações, e talvez até maior ainda; e, se a pessoa se denominava com alguma letra de siglas como “LGBTQ+” no passado, espera-se que ela a renuncie voluntariamente. O discurso mais comumente divulgado pelos defensores desta posição é que a AMS não seria inata, que ninguém “nasce gay”, mas é influenciado(a) por diversos situações e eventos vivenciados na infância e juventude (como: masturbação compulsiva[44]; pai ausente e/ou mãe autoritária; histórico de traumas ou abusos sexuais e/ou de promiscuidade; etc.), sendo que o desenvolvimento da atração homossexual se dá de forma diferente para homens e mulheres[45]; no entanto, essa argumentação muitas vezes é oferecida em falas neurotizantes e carregadas de clichês preconceituosos, e acaba soando terrivelmente rasa e batida[46]. A evidência científica mais recente sugere que, embora não exista um “gene gay” em particular, há, sim, múltiplos fatores biológicos envolvidos (genéticos, hormonais, pré-natais)[47] – que, no entanto, não podem ser apontados como explicação singular ou majoritária de todas as instâncias da homossexualidade humana[48]. Em suma, não é à toa que a posição ex-gay seja tida como retrógrada e ache-se com a popularidade em baixa queda livre hoje em dia[49] (sendo até mesmo alvo de chacota[50]). Foi-se o sucesso estrondoso que fazia cerca de vinte anos atrás[51], e a grande cobertura positiva na imprensa norte-americana. Ao buscar auxiliar outros, especialmente aqueles que sofreram traumas na infância e juventude, as pessoas que iniciaram tais ministérios podem ter tido boas intenções[52]; mas depois que foram vindo à tona notícias constrangedoras a respeito dos ministros, e também de “práticas disciplinares” abusivas e revoltantes para com aqueles que lhes vinham (ou eram enviados) para serem ajudados, a imagem deles ficou maculada de forma indelével[53]. Não há no cenário norte-americano atual um número grande de representantes do movimento ex-gay que ainda gozem de ampla visibilidade; mas os nomes de Anne Paulk, Joseph Nicolosi, Robert Gagnon, James Dobson e Joe Dallas, entre outros, ainda são associados ao movimento.

Uma observação importante deve ser feita sobre uma configuração possível que foi mencionada muito en passant anteriormente: os “casamentos de orientação mista” ou “COMs” (em inglês, mixed-orientation marriages ou MOMs). São exatamente o que soam: um arranjo em que ambos os cônjuges apresentam orientações sexuais diferentes e incongruentes – por exemplo, um homem homossexual e uma mulher heterossexual, ou vice-versa. Há vários relatos de pessoas que entraram nessas uniões, notoriamente quando empurrados por ministérios ex-gay, esperando que o relacionamento com o marido ou a esposa “sarasse” e sanasse sua atração pelo mesmo sexo – que não foi o que aconteceu na maioria dos casos: com tais indivíduos, muitas vezes advieram resultados tristes, como uma relação de casal problemática, efeitos maléficos trazidos sobre a formação dos filhos – e não raro, um casamento infeliz e de fachada, que leva a freqüentes traições e casos com outros(as) homossexuais, até culminando num dos cônjuges se divorciar do(a) outro(a) e assumir sua identidade anterior como gay ou lésbica (ou bissexual). Os casamentos deste tipo de configuração que dão certo, na verdade, deixam a orientação sexual em segundo plano e colocam acima dela a decisão de amar a esposa ou o marido como Cristo ama a Igreja, deixando-o participar ativamente da relação e moldá-la. As dedicação e entrega totais ao(à) companheiro(a), partindo do amor consciente e proativo, conforme estes relatos positivos, por vezes acabam a longo prazo por produzir até mesmo o “Santo Graal” da terapia reparativa: is this a blob? a atração heterossexual – não necessariamente uma atração pelo sexo oposto como um todo, mas sim pelo(a) cônjuge[54]: há relatos em que o marido continua a sentir certo desejo por outros homens (às vezes em menor intensidade do que antes) e pouco ou nenhum por mulheres em geral; mas, ele sente atração[55] por sua esposa e deseja satisfazê-la. O amor philia da amizade dos companheiros ajuda a mediar o eros do casal na cama[56]. Para se chegar a este ponto, no entanto, é importante frisar que, já desde o namoro, o casamento deve ser altruísta e cristocêntrico, focado em praticar a comunhão de pessoas diferentes que trabalham juntas – que é exatamente o que caracteriza de forma fundamental a Trindade divina, a base de todo o gigantesco edifício da fé cristã. E, para os cristãos, tanto o casamento quanto o celibato são antes vocações[57] do que meras respostas fisiológicas a hormônios e neurotransmissores – e como tais, nenhum dos dois deve ser jamais imposto a ninguém.

Ƥara fechar o quarteto de letrinhas, temos mais um apelido: o “Lado Y” – e é importante esclarecer que a letra do quarto Lado veio de fora, foi cunhada no seio da comunidade Lado B. Com efeito, um número significativo dos que se encontram aqui não usam ou até não gostam da terminologia dos Lados; quando necessário, simplesmente dá-se preferência ao epíteto descritivo SSA, significando same-sex attraction ou same-sex attracted – poderíamos utilizar AMS, “atração/atraído(a) pelo mesmo sexo” em português – ao invés de palavras como “gay” e/ou outras de siglas como LGBTQIAPN+ (algumas pessoas, incluídos aí os mórmons, falar também em SGA, same-gender attraction, “atração pelo mesmo gênero”; há até outro blogueiro, bissexual, também católico e brasileiro, que usou a expressão “desvio de afetividade”[58]). A designação “Lado Y” foi criada por Gabriel Blanchard para denotar aqueles que consideram a AMS algo indesejado, e freqüentemente podem não se sentir confortáveis com a linguagem LGBTQ+ e/ou sua cultura (e nesse sentido, há quem julgue que esta posição abraça a heteronormatividade), e procuram ativamente distanciar-se do movimento LGBT secular e, principalmente, do que se percebe como sua ideologia subjacente: o foco na sexualidade como peça-chave na constitutividade pessoal[59]. (Ross Neir e outros brincam que a letra Y, que tem pronúncia no inglês idêntica a why?, vem da pergunta insistente, sempre repetida aqui: “Why identify as gay?”). Seu entendimento é que uma identidade baseada na sexualidade não tem compatibilidade total com a identidade cristã[60]. A ênfase do “movimento SSA” (se é que podemos chamá-lo assim), tende a se centrar em ser uma nova pessoa em Cristo, filho e filha de Deus, sem fazer referência à orientação sexual como elemento identitário. Ao mesmo tempo, porém, seus porta-vozes não necessariamente advogam tentar mudar a orientação sexual – pode-se dizer que se está aberto à possibilidade da mudança, mas ela não é uma promessa[61]. Ao tirar o foco das atrações, cabe à pessoa cujos pensamentos, sentimentos ou experiências individuais desviam-se do padrão heterossexual normal, simplesmente lutar contra eles e, com naturalidade, compartilhá-los com outros com o fim único de obter o apoio necessário para se viver em santidade com tal situação – que não seria uma doença, talvez, mas com certeza uma condição. Percebe-se ser uma postura que pode soar como um meio-termo estranho entre o Lado X e o Lado B, e o próprio blogueiro que inventou a designação mostrou-se reticente para com eles; também, os limites que separam a posição SSA e a ex-gay podem ser porosos. Alguns grupos, como o Apostolado Courage (da Igreja Católica Romana)[62], são formalmente Lado Y embora abram espaço para o pensamento ex-gay[63]. Outros, como o Harvest USA, são Lado Y mesmo e fazem questão de desacreditar a mudança de orientação. Nos países de fala inglesa, alguns dos nomes que ilustram e exemplificam esta posição são o Pe. Paul Check, Matt Moore, Daniel Mattson, Becket Cook, Denny Burk, Rebecca McLaughlin, Jackie Hill Perry, Sam Allberry, Christopher Yuan e Rosaria Butterfield (e provavelmente, também o pensamento do Papa Bento XVI[64]).

Uma observação derradeira acerca do que separa os Lados B e Y é que, de forma muito controversa, um número significativo de proponentes do primeiro defende a possibilidade de um arranjo platônico chamado “parceria celibatária do mesmo sexo” (em inglês, same-sex celibate partnership)[65]. Essas tais parcerias homorromânticas constituem uma proposta bastante peculiar, da qual os outros dois grupos nas pontas do espectro discordariam: o Lado A dirá para simplesmente casar-se e curtir o romance e o sexo com seu(sua) parceiro(a), enquanto que o Lado X emitirá um sonoro “não” e ato contínuo apontará levar ao altar um(a) candidato(a) do sexo oposto que você já pode começar a cortejar na sua própria igreja. Já os defensores do movimento SSA / AMS / Lado Y, por sua vez, freqüentemente veem as parcerias celibatárias com desconfiança, desencorajando ou até negando-as (em coro com os ex-gays) – e não sem certa razão, visto que há registro de indivíduos envolvidos em algumas dessas parcerias que, depois de certo tempo, se tornaram sexualmente ativos um com o outro (tornando-se, para todos os efeitos, um casal homoafetivo Lado A): um caso recente de grande repercussão na comunidade estadunidense foi o de dois rapazes do Lado B, que até trazerem a público a mudança de direção no seu relacionamento, eram suuuper populares nas redes sociais e tomados como modelo e exemplo de um par “que deu certo”[66]. Na medida em que as parcerias célibes forem mais fundadas em atração ou desejo do que na amizade espiritual cristã genuína e desinteressada, será grande o risco de dar errado e terminar em desvio.

Um exemplo mais positivo e duradouro pode ser encontrado na experiência de duas moças cristãs, Sarah e Lindsey, relatada em seu blog A Queer Calling[67]: cada uma delas primeiro ouviu individualmente o chamado de Deus ao celibato em suas vidas, e só depois decidiram trilhar esse caminho juntas, vendo em sua parceria uma oportunidade de se encorajarem mutuamente (e a outros crentes) nessa vocação. Ambas as autoras preferem não usar os rótulos dos Lados A versus B porque, explicam, muitas vezes esse tipo de dicotomia reduz a questão a uma única pergunta: “o sexo gay é pecado ou não?”. (Na seção de “Perguntas Freqüentes”, as autoras mencionam algumas das limitações dessa terminologia, tais como: do Lado B, a típica obsessão por delimitar o que é e o que não é sexo, às vezes esvaziando a discussão a apenas genitais; do Lado A, a obrigatoriedade de modificar as teologias das igrejas para acomodar o casamento gay dentro do matrimônio[68]; e ainda, de forma especial, a forma como ambos os Lados pouco dialogam com pessoas que apresentam identidades trans, queer, dentre as outras letras incluídas para além do “+” de LGBTQ+.) Embora elas tenham uma resposta pessoal à pergunta, muitas vezes o Lado B acaba resumido na negativa “NÃO FAÇA SEXO!” – com pouco a dizer sobre o que pode ser feito. Em uma postagem muito popular em que procuram definir sua experiência de celibato, com uma inspiração declarada na tradição monástica, Sarah e Lindsey destacam quatro pontos centrais em sua parceria celibatária: a hospitalidade radical (promovendo constantemente o acolhimento a visitantes), vulnerabilidade (abrindo-se sinceramente para se conhecerem de forma mais profunda), a vida espiritual compartilhada (com orações feitas em conjunto, e momentos de adoração juntas e separadas) e um compromisso autêntico (com o estilo de vida adotado e com outras pessoas).

Outro modelo positivo é visto numa comunidade monástica moderna, chamada Nashville Family of Brothers[69]. Ao invés de brothers que competem entre si por fama na TV e uma bolada em dinheiro, esta é uma autêntica família de irmãos, homens vocacionados à solteirice e unidos não por laços de sangue, mas pelos serviço e consagração espirituais. Como contraproposta ao romance e casamento enquanto “panaceia universal” para o problema da solidão, comum em muitississíssimas igrejas para pessoas de todas as orientações afetivo-sexuais, este grupo interconfessional inspira-se na prática cristã da adelfopoiese[70] e disponibiliza concretamente um sacramento esquecido. O lar monasterial tem como propósito ser lugar para todos partilharem dos momentos de oração, confissão, refeições, feriados, celebrações e luto – não local de adoração, trabalho ou de isolamento da igreja e dos amigos. Para se unir à comunidade, depois de um quatro anos e meio de discernimento, cada irmão assume quatro compromissos cardeais: como família permanente e santificada, com o celibato enquanto vocação, em simplicidade por causa do Reino e obediência à regra da irmandade.

Há dois termos aqui que usei de forma mais ou menos intercambiável: “parcerias celibatárias do mesmo sexo” e “amizades espirituais”. Aí a gente coça a cabeça e se pergunta:
Ué, e não são a mesma cousa? Ou distingui-las seria como tentar diferenciar bolacha e biscoito?
bolacha ou biscoito (de LEGO)
Meu principal motivo para tratar ambas as configurações de forma ambígua e quase sinônima é porque é assim que as (poucas) pessoas que estão ou estiveram nelas falam delas (geralmente em discussões privadas – often in English only). Impor uma distinção rígida entre estes modos de relacionamento pode criar divisões artificiais e arbitrárias. Dito isto, a impressão que observadores de mais longa data têm das “parcerias celibatárias” e das “amizades espirituais” inclina-se para o seguinte:
Nas parcerias celibatárias, muitas vezes o ponto de partida é (ou foi) o romance – subentenda-se, com as nossas noções contemporâneas, hollywoodianas, heteronormativas do quê constitui “romance”. Os parceiros tendem a pensar um bocado nas suas interações de carinho e afeto, mesmo que não necessariamente sexuais ou sensuais: atividades que vão desde ir ao mercado e cozinhar juntos, passando por assistir um filme abraçados… até níveis maiores de intimidade, sem que se faça sexo (e aí, a coerência fica a cargo das consciências individuais). Um cenário comum é quando um casal homoafetivo e sexualmente ativo converte-se a uma vertente cristã tradicional, e reconhece que manter relações sexuais seria pecado; então, sem se divorciarem, eles(as) continuam juntos(as), com o combinado de irem para camas separadas à noite.
Já as amizades espirituais são longamente atestadas pela tradição cristã, primitiva e medieval, embora nem sempre conhecidas do público leigo. Além disso, a orientação sexual dos “amigos espirituais” não era um fator levado em conta (em épocas em que este conceito sequer existia) – e aqui começamos a ver a principal diferença: uma amizade espiritual é em sua essência uma amizade, na qual a fé é o elemento mais importante[71], a cola que os une – que os amigos desejam usar para darem um passo além juntos. Se existir atração entre os dois migos (talvez porque ambos experimentam AMS, o que não aconteceria entre dois BFFs héteros), aí pode surgir a necessidade de se lidar com a tensão do tesão. Além disso, uma amizade espiritual pode mais facilmente assumir uma configuração para além de duas pessoas, formando uma pequena comunidade – não um relacionamento de poliamor, mas a abertura a que mais amigos sejam incluídos também.

Na prática, ambos os modelos ficam muito parecendo cara de um, focinho do outro – e ambos têm como objetivo comum principal evitar o conhecido medo de terminar (e morrer) sozinho(a), a solidão do celibato e especialmente da solteirice – e cada um tem o direito de chamar como quiser. No entanto, é saudável que, além de tomar cuidado com (co)dependência emocional e para além da decisão de não se envolver sexualmente com o(a) crush com quem se quer ter mucho love, cada pessoa procure antes discernir sua motivação profunda em querer firmar tal relacionamento, ao mesmo tempo castamente intenso e intensamente casto.

Ғinalmente aterrisámos aqui, depois de todo esse percurso, num ponto muito interessante e centralmente relevante para toda esta discussão: o casamento versus o celibato. Analisados com atenção, nenhum dos Lados “proíbe o celibato” (ou o casamento); dizer isto seria uma leitura equivocada das ênfases de cada posição. O movimento ex-gay vê o celibato (e a abstinência prolongada) com desconfiança e preocupação, especialmente se a pessoa experimenta AMS, porque pensa-se que ela poderia vir a ser presa fácil para a sedutora teologia inclusiva. Na verdade, é aqui que tocamos na questão realmente crucial para a cristandade contemporânea: o fato de que o casamento tornou-se um ídolo (seja ele heterossexual ou não), um “sonho de consumo” – afinal, quem não quer ter o seu “… e viveram felizes para sempre”? As animações clássicas da Disney e as comédias românticas de Hollywood incutiram em nossas mentes que isto se materializa no casal que caminha de mãos dadas rumo ao horizonte – enquanto que as Escrituras Sagradas são claras em afirmar que a nossa alegria está em Deus e que ela será “para sempre” quando estivermos ao lado d’Ele por toda a eternidade. Esta é a principal reflexão que pode ser oferecida tanto à teologia inclusiva (Lado A) quanto ao movimento ex-gay (Lado X): questionar o apego à ideia de que “você precisa se casar para ser (plenamente) feliz”. Não. Nós precisamos de Deus para gozarmos da felicidade plena[72]. Muito embora o casamento seja louvado na Bíblia, descrito como instituição divina e uma grande bênção (especialmente no Antigo Testamento, onde espelha o compromisso do Senhor com Israel) e até, na Nova Aliança, usado para simbolizar a união de Cristo com a Igreja… o estar solteiro (ou viúvo, ou até mesmo divorciado), desde que no serviço do Reino dos Céus, também é uma condição aceitável e válida aos olhos do nosso Mestre – e é um rabino solteirão quem melhor discorre sobre isso em 1 Coríntios 7, no mesmo capítulo em que ele fala dos dons do matrimônio (blob sunglasses down o mesmo Paulo, aliás, o teólogo mais prolífico e influente na história do cristianismo, que, numa outra carta, endereçada à igreja em Roma, demonstrou como a rebeldia contra o Creador acaba por bagunçar e perverter a nossa sexualidade e as nossas mentes). Nosso Deus nos promete que a alegria e a felicidade virão e serão vivenciadas na comunhão com os outros filhos e filhas de Deus, segundo o novo modelo de família instituído pelo próprio Jesus Cristo (num evento registrado nas biografias dele, em Mateus 12.46-50 / Lucas 8.19-21 / ⁑Tomé 4.99,101): a família na fé – fé esta que é a confiança absoluta n’Aquele que nos creou.


Para complementar, Aaron* acrescenta ainda mais duas letras à sopa, para representar posições intermediárias:

  • Ŀado Ѻ: o nome veio da letra “O” de outro[73]; mas essa linha de pensamento é mais comumente conhecida como “Third Way” (“Terceira Via”). Em bom português, seriam os adeptos do “deboísmo teológico”: os que se preferem esta abordagem buscam promover a convivência e a tolerância pacíficas em meio à tensão entre os Lados com um entendimento que, embora uma posição ou outra possa ser mais próxima da verdade de Deus, questões de sexualidade não têm importância suficiente para gerar divisão; e, para alguns, não é necessariamente um critério relevante para reconhecer ou não o outro como um cristão salvo por Deus (e neste sentido a “Terceira Via” dialoga e pode entrar na composição de alguns dos meios-termos “C’s” que vêm adelante). Este tipo de posicionamento “paz e amor” é encontrado com mais freqüência em entidades cristãs (pode-se dizer que é a postura oficial da QCF; e certamente o era da saudosa GCN), sendo por vezes originado naqueles que são amig@s e familiares das pessoas com atração pelo mesmo sexo: a homossexualidade é uma questão com a qual eles interagem, mas que não vivenciam em seu dia-a-dia pessoal, nem pesa muito nas grandes decisões das suas vidas; no máximo, terão que conversar com alguém a quem amam muito (e assim, este pode ser o tipo de neutralidade que algumas igrejas e congregações assumem publicamente). Como referência, é citado o Rev. Danny Cortez, heterossexual, que em 2014 causou controvérsias no meio batista estadunidense ao propor que ❝[podemos] concordar em discordar (…) e não ficarmos julgando uns aos outros❞[74]. Outro exemplo que poderia ser mencionado é Andrew Marin, presidente da fundação cristã que leva seu nome: ele mudou-se com sua esposa para Boystown (famoso bairro gay de Chicago) para trabalhar lá diretamente com a comunidade e “construir pontes”; mas, quando pressionado, sempre se recusa a se pronunciar sobre a homossexualidade ser pecado ou não[75]. Este é o motivo que impossibilita colocar a “Terceira Via” no gráfico (e dificulta sustentar o “Lado O” enquanto posicionamento individual): porque seus aderentes podem ser classificados em qualquer uma das categorias – e, é majoritariamente defendido por pessoas que não vivenciam elas mesmas a atração pelo mesmo sexo. Como contribuição positiva, a proposta “deboísta” enfatiza o acolhimento, talvez de forma especialmente eficaz para com aqueles que se encontram afastados ou desigrejados; é uma lição que tem potencial benéfico para todos os demais Lados. Por outro lado, o risco presente nessa “Terceira Via” é o de princípios que podem ser comprometidos, quando um cristão decide não se pronunciar em assuntos em que a felicidade e a santidade de milhões de outros crentes está em jogo, ao responder que a própria pergunta não tem valor. Em suma, pode-se dizer que esta posição, na verdade, é a de não optar por uma posição.
  • Ŀado(s) Ͼ: Designa as pessoas que estão “em cima do muro”, entre duas letras adjacentes dentre as quatro (na terminologia original do Bridges-Across the Divide, havia apenas um “Lado C”: estar indeciso entre A e B, se ter relações homossexuais seria pecado ou não), ou adotando uma posição intermediária entre elas. No gráfico mais acima, foram propostas um total de três posições intermediárias possíveis (C1, C2 e C3). Pessoalmente, creio ser importante anotar que cada um dos três C’s se caracteriza por serem posicionamentos que podem selecionar com certo detalhamento o que é defendido e rejeitado, são posturas que tentam incorporar elementos de ambos os Lados vizinhos já bem definidos – e com isso contribuem com a sugestão implícita que os Lados sejam menos rígidos e mais fluidos do que se pensavam, e devam ser enxergados mais como pontos de referência num espectro (como as “sete” cores que há num arco-íris), do que como entidades discretas separadas e totalmente distintas. Por outro lado, é muitíssimo pessoal a medida em que cada pessoa vai tomar para si esse ou aquele ponto dos Lados entre os quais encontrou seu lugar [76] – e assim, dois indivíduos C1 que comecem a trocar figurinhas podem descobrir que não concordam em tudo (idem para os outros dois, C2 ou C3).

LEGO bricks piñata cookiesÉ particularmente desafiador tentar delimitar contornos para cada um dos “Ŀados” Ͼ, porque eles são reconhecidos justamente por não concordar totalmente nem com um nem com outro de seus vizinhos; mas vou tentar esboçar algo aqui. Alguém pode localizar seu pensamento na posição C1 (entre A e B) porque apoia sinceramente tanto um quanto outro, quem opta pelo celibato quanto e quem se une a outro do mesmo gênero; ou então, porque não tem certeza absoluta serem as relações homossexuais pecado ou não (na América do Norte, geralmente se diz que quem está indeciso nesta questão está no “Lado C” simplesmente – e os três C’s simplesmente não são reconhecidos; já o blogueiro de Highly Aaronic preocupa-se e chama-os de “Lado A light”[77]) – uma defesa da abstinência para não-heterossexuais que tenha certa tolerância para com relacionamentos casuais e/ou ocasiões “incidentais” de sexo pode se aproximar deste tipo de postura; ainda, a título de exemplo extra, os g0ys[78] (sim, soletra-se com um dígito zero – e a ética sexual “judaico-cristã” deles é muitíssimo questionável, bem mais do que a do Lado A, além de über-machista, homotransfóbica e misógina) talvez se aproximassem desta posição, porque condenam como pecado o sexo penetrativo anal dos “gAys”, mas não outras formas de intimidade sexual e/ou erótica entre homens. • Para que alguém fixe com conforto residência na posição C2 (entre B e Y), pode vir a ser um indivíduo que não faz grande discriminação entre os termos “LGBT” e “AMS” e usa-os como sinônimos intercambiáveis, praticamente; ou, é igualmente possível que essa pessoa que abrace de forma seletiva a terminologia LGBTQ+ secular – empregando-a nas conversas com interlocutores e miguxos mais liberais, para facilitar e simplificar a comunicação, mas ao mesmo tempo opte por firmar sua identidade sexual sòmente em termos bíblicos; o mesmo vale para escolher deixar-se definir ou não pela cultura LGBTQ+ e por estereótipos, e em que medida. • Talvez, um defensor de uma posição C3 (entre Y e X) venha a ser, por exemplo, uma pessoa que recusa veementemente um rótulo de “gay”, “lésbica” ou “bissexual”, crendo plenamente que a transformação de sua sexualidade provirá não de um método que lhe seja imposto à força, mas depende de forma integral da renovação pelo poder do Espírito Santo, que por sua vez trabalhará mente e afinal sentimentos[79] – e no processo busca manter o corazón em paz, quer o casório chegue, quer pareça tardar. Quero fechar este parágrafo dizendo que estas não são as únicas definições possíveis para os C’s (e que estão sujeitas a retificações!); são apenas tentativas trêmulas de se oferecer cenários que (penso eu) seriam plausíveis para cada “Lado” C[80].


O evangélico Ross Neir, um rapaz alinhado com o Lado B, publicou em seu blog The Inside Outpost um texto interessantíssimo em que aplica à questão da homossexualidade o conceito de ordens de importância de Albert “Al” Mohler (um conhecido teólogo batista estadunidense).
Sides ABYX – The Inside OutpostQuerendo ler mais, clica-te sésamo!

O que são essas “ordens”? Por exemplo, para a fé cristã, é questão de primeira ordem acreditar nas plenas divindade e humanidade de Jesus e nas autoridade e inspiração divinas da Bíblia; sem essas coisas, não dá pra considerar alguém cristão, sorry not sorry. Na segunda ordem jazem as tretas que dividem grupos religiosos, como a idade para batizar ou a ordenação de mulheres. Já outros assuntos que teriam importância ainda menor são ditos de terceira ordem, como as várias interpretações escatológicas ou a idade do planeta Terra.

O jovem pensador transpôs esta gradação elegante para o debate cristão sobre sexualidade nos seguinte termos:

  • Ele admitiu que ainda não conhecera questões de primeira ordem aqui, algo como uma “Grande Muralha da China”, com uma contraproposta que queira colocar a homoafetividade no centro de uma fé pós-cristã.
  • Mas há uma grande de segunda ordem: celebrar ou desaprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo – encontrámos aqui o “Muro de Berlim” que separa os Lados A e B – e que, pensava Ross, não impede a comunhão, todavia dificulta senão impossibilita que dois ministérios de posições opostas trabalhem ombro a ombro.
  • Na terceira ordem, encontra-se o debate se a tal orientação sexual é mutável ou não – é aqui que o pessoal Lado X dá o seu adeus aos demais com a sua “mureta de garagem” (o que não necessariamente impede até o freqüentar a mesma reunião da igreja juntos).
  • E finalmente, uma questão de quarta ordem (categoria que non ecziste no sistema de Mohler) seriam discussõezinhas triviais e irrelevantes: especificamente, o identificar-se como “gay/LGBTQ+” ou “atraído(a) pelo mesmo sexo” – em outras palavras, os Lados B e Y, análogos a duas camas separadas por um “biombo num quarto”.

Pessoalmente, aprecio pacas a avaliação dele (sinto-me tentado a apelidar seu modelo de “ordens de Mohler-Neir” face with monocle). Esta forma de visualizar o panorama também explica por que o muro em cima do qual o “Lado C1” está confortavelmente sentado (ao não responder à maçante pergunta: “e aí, é pecado ou não é?”) dá a impressão de ser mais graúdo do que o frágil cercado em que um “Lado C2” está pousado (quando indago: “quais termos e cultura vou adotar?”). Já o “Lado C3”, pela minha observação, creio ter se tornado mais socialmente aceitável do que o desacreditado Lado X stricto sensu, na alegação de que não impõe violentamente a heteronormatividade.

Avaliar o peso relativo de cada ponto ajuda a entender a exposição feita pelo também protestante David Ingold, que na sua apresentação de slides sobre ser um cristão gay historicamente ortodoxo, agremiou os Lados B, Y e X – de que modo muitos dos nomes listados por ele, embora nominalmente afiliados a um dos Lados (Christopher Yuan, Sam Allberry, Rosaria Butterfield, Chris Damien – e inté mesmo C.S. Lewis, quando tangenciou o assunto), têm a contribuir para os outros posicionamentos de forma fraterna.


Naturalmente, nem todos concordam com esta forma de enxergar as coisas! Para sucinta e finalmente citar alguns nomes brazucas: influencers conservadores como Dulci e Andréa veem a identificação no nível pessoal como sendo de fundamental importância, e um encaminhamento inadequado arrisca pôr o kokoro em situação de idolatria; já para ativistas mais prafrentex como Alecrim e Thales, é muito mais urgente que a igreja brasileira combata a LGBTfobia e seus pré-conceitos ultrapassados, e se esforce para proativamente acolher e proteger as pessoas LGBTQIAPN+; e lembramos ainda, infelizmente, que em muitas das nossas igrejas não falta gente olhando torto e fazendo fofoca sobre “aqueeele(a) jovem, que está perto dos 30 e ainda não casou, nem namorar namora!”. Para cada uma destas pessoas, as fronteiras das ordens talvez precisem serem trocadas de posição de acordo com onde cada um vê mais necessidade de metanoia, de verdadeira mudança de mentalidade. (Se tu ainda desconhecias essa galera, então corra para a seção de recursos selecionados e confira o trabalho deles!)

Peço ao(à) leitor(a) que, a partir das Escrituras e de sua relação de confiança em Deus, com muita oração e humildade, reflita no quê você acredita serem as coisas mais importantes na forma como você lida com a sua sexualidade, e como você crê que melhor pode servir e louvar ao seu Senhor em meio a ela. Encontrar a sua “letra”, especialmente se for para agitá-la como bandeira ou colocá-la no crachá, não deve ser o nosso alvo – como disse certa vez, ao apóstolo Paulo, o infame governador romano Pórcio Festo: «As muitas letras te fazem delirar!» (Atos 26.24b, vertido assim exclusivamente na Almeida Revista e Atualizada). O que realmente importa é você ter a convicção de estar caminhando lado ao lado com o Creador do Universo e seu Salvador pessoal.

Que tal revisitar as passagens bíblicas que “condenam o homossexualismo” – mas apresentadas de formas ligeiramente diferentes daquela que crescemos escutando do púlpito da igreja? Para lê-las, clique djá!

Vamos começar com o trecho mais importante (tão importante que Jesus baseou nele seu ensino sobre divórcio, casamento e solteirice, em Mateus 19.1-12 / Marcos 10.1-12): no princípio Deus.


Gênesis 1.26-27
a BÍBLIA para todos (Sociedade Bíblica de Portugal): 26 Deus disse ainda: “Façamos o ser humano à Nossa imagem e semelhança. (…)” 27 Deus então creou o ser humano à Sua imagem; creou-o como verdadeira imagem de Deus. E este ser humano creado por Deus é o homem e a mulher.

Gênesis 2.7-9,18-25
Haroldo de Campos, Éden (um Tríptico Bíblico) (Perspectiva): 7 E afigurou O-Nome-Deus, o homem, pó, da terra-húmus; e inspirou em suas narinas, o respiro dos vivos. E ficou sendo o homem, alma-de-vida. 8 E plantou, O-Nome-Deus, um jardim no Éden, a leste. E pôs ali: o homem, o qual afigurara. 9 E fez brotar, O-Nome-Deus, da terra-húmus: toda árvore, aprazível de ver, e boa de comer. E a árvore-da-vida, no meio do jardim; e a árvore – do saber, do bem e do mal. (…) 18 E disse, O-Nome-Deus: não é bom, estar o homem, à parte. Farei para ele uma parceira, a par dele. 19 E afigurou O-Nome-Deus: da terra-húmus, todo animal do campo, e, toda ave do céu; e os fez vir, até o homem; para ver, como ele os chamaria. E todas, como as chamasse o homem, almas-de-vida, assim seu nome. 20 E chamou o homem, por um nome, todo animal-gado, e toda ave do céu; e todo, animal-fera do campo. E para o homem: não encontrou parceira, a par dele. 21 E fez cair, O-Nome-Deus, um sono-torpor, sobre homem, e ele adormeceu. E tomou, uma, de suas costelas; e fechou a carne, por sob ela. 22 E configurou O-Nome-Deus, a costela, que tomara do homem, em mulher. E a fez vir, até o homem. 23 E disse o homem: esta desta vez, osso: dos meus ossos; e carne, de minha carne. A esta, chamarei MUlher – pois do homem-hÚMUs, esta foi tomada. 24 Por isso, o homem deixa: seu pai, e sua mãe. E se apega à sua mulher – e eles serão, uma carne una. 25 E estavam eles dois, desnudos, o homem, e sua mulher. E não, se envergonhavam.

Obs.: Tomei a liberdade de ir substituindo o verbo moderno criar pelo arcaísmo crear; bem como grafando os pronomes e termos divinos com inicial maiúscula. (Não coloquei versões em espanhol aqui, mas gosto muito de uma assonância que só é possível nessa língua: «hombre y hembra los creó» – algumas traduções das antigas em português conseguem um efeito parecido com «varão» × «varoa».)

Mateus 19.4-12
The Voice (Thomas Nelson): 4 [Jesus respondeu:] “Vocês não leram que no começo Deus creou a humanidade macho e fêmea? Vocês não se lembram do que a narrativa da nossa creação nos diz sobre o casamento? 5 «Por esta razão, um homem deixará seus mãe e pai e apegar-se-á à sua esposa, e os dois se tornarão uma só carne.» Se marido e esposa são de fato uma só carne, como poderiam se divorciar? 6 Se marido e esposa são uma só carne, o divórcio seria como uma amputação sangrenta, não seria? «O que Deus ajuntou, que homem nenhum separe.» (…) 8 Moisés permitiu a vocês se divorciarem de suas esposas porque seus corações eram duros. Mas o divórcio foi uma inovação, uma modificação feita para um mundo caído. Não havia divórcio na creação.” (…) 10 [Os discípulos lhe disseram:] “Se é assim que são as coisas, então é melhor nem se casar.” 11 [Jesus respondeu:] “Nem todo mundo consegue ouvir isto, só aqueles a quem lhes foi dado. 12 Algumas pessoas não se casam, é óbvio. Alguns são eunucos porque nasceram assim, outros foram feitos eunucos pelos homens, e outros renunciaram ao casamento por causa do Reino do Céu. Qualquer um que possa abraçar tal chamado deveria fazê-lo.”
Eugene Peterson, The Message (NavPress): 4 Ele respondeu: “Vocês não leram na Bíblia de vocês que o Creador originalmente fez homem e mulher um para o outro, macho e fêmea? 5 É por causa disto que um homem deixa pai e mãe e encontra-se firmemente juntado à sua esposa, e tornam-se uma só carne – 6 já não mais dois corpos, mas um só. Já que Deus creou esta união orgânica dos dois sexos, ninguém deve profanar a Sua arte seccionando-os ao meio. (…) 8 Moisés providenciou o divórcio como uma concessão à dureza de coração de vocês, mas ele não era parte do plano original de Deus. 9 Estou lhes dizendo para ficar com o plano original, e coloco sobre vocês a responsabilidade se um de vocês se divorciar da sua fiel esposa e daí se casar com outro alguém. Abro uma exceção nos casos em que o(a) cônjuge tiver cometido adultério.” 10 Os discípulos fizeram uma objeção: “Se esses são os termos do casamento, estamos sem saída. Pra quê casar-se?” 11 Mas Jesus respondeu: “Nem todo mundo tem maturidade suficiente para viver a vida de casado. É necessária uma certa aptidão e graça. O casamento não é pra todo mundo. 12 Alguns, aparentemente de nascença, nunca nem pensam em se casar. Outros jamais fazem o pedido – ou jamais são pedidos. E alguns decidem não se casar por razões do Reino. Mas se você for capaz de se desenvolver na direção do casamento em seu sentido maior, faça-o.”

LEGO Fantastic Four “The Thing” minifiguresNesta seção, gostaria de oferecer acesso a algumas versões bíblicas alternativas, tanto traduções quanto paráfrases (publicadas em vários idiomas) – que evitam palavras de uso viciado ou datado (“sodomitas”, “pederastas”, “efeminados/afeminados”, etc.) e freqüentes abusos dos substantivo e adjetivo modernos “homossexual”. São releituras, que talvez melhor expressem, de forma pontual, um pouco dos sentidos profundos nos “versículos do quebra-pau”. (E ao citá-las, não defendo que a versão como um todo seja melhor, ou pior, do que as outras (especialmente não para devocionais ou estudos bíblicos cotidianos); quero dizer apenas que nessa passagem específica, opino que ela saiu na frente.)


1Timóteo 1.9-11
J.B. Phillips, Cartas Para Hoje (Vida Nova): 9 Contudo, sabemos também que a lei não foi feita para o homem bom, mas para aquele que não tem princípios nem autocontrole, para o homem realmente ímpio, que não tem escrúpulos nem reverência. Sim, a lei está voltada contra esse tipo de pessoa que ataca seus próprios pais, mata seus companheiros, 10 sexualmente descontrolada ou pervertida, ou que está envolvida no comércio dos corpos dos outros. Ela é contra mentirosos e homens que juram falsamente – na verdade, contra toda e qualquer ação que contradiz o ensino saudável do evangelho glorioso, 11 dado e confiado pelo Deus bendito.
David Stern, Novo Testamento Judaico (Mundo Cristão): 9 Temos consciência de que a Torá não tem por objetivo a pessoa justa, mas quem negligencia a Torá, os descrentes, ímpios e pecadores, quem mata pai e mãe, 10 pessoas sexualmente imorais – quer heterossexuais quer homossexuais –, vendedores de escravos, mentirosos e perjuros, e todo que age de forma contrária à sã doutrina, 11 que se harmoniza com as boas-novas do glorioso e bendito Deus.
Martin Dreyer, Volxbibel (Pattloch): 9 A quem se aplicam então estas leis? Para pessoas que já estão vivendo com Deus e estão bem com Ele? Não, elas são destinadas às pessoas que não têm nenhum desejo por Deus, que vivem sem nenhuma lei e estão sempre contra tudo. Para essas pessoas, que sempre fazem o contrário do que Deus quer de verdade, para gente profana que tira sarro de Deus, para gente que já não tem mais consciência, para assassinos e violentos, 10 viciados em pornografia, pedófilos, para gente que negocia com seres humanos, para mentirosos e sujeitos que exploram os outros impiedosamente, para pessoas que juram e depois não cumprem, ou para pessoas que não estão nem aí para o ensino saudável sobre Deus. 11 Foi assim que Deus me ensinou. Esta é a boa notícia que eu ouvi d’Ele, o Deus massa além da conta.
Frederico Lourenço, Bíblia – Novo Testamento: Apóstolos, Epístolas, Apocalipse (Companhia das Letras): 8 Sabemos que a lei é bela, contanto que quem a usa o faça legitimamente, 9 e sabendo que a lei não está estabelecida para o justo, mas para desregrados e insubordinados, para ímpios e pecadores, para sacrílegos e profanos, para parricidas e matricidas, homicidas, 10 machos que se deitam com machos, traficantes de escravos, mentirosos, perjuros e qualquer outra coisa que se oponha à sã doutrina, 11 segundo a boa-nova da glória de Deus bem-aventurado, que me foi confiada.

1 Coríntios 6.9-10
King James Atualizada (Abba Press / Sociedade Bíblica Ibero-Americana): 9 Não sabeis que os injustos não herdarão o Reino de Deus? Não vos deixeis enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem adúlteros, nem os que se entregam a práticas homossexuais de qualquer espécie, 10 nem ladrões, nem avarentos, nem viciados em álcool ou outras drogas, nem caluniadores, nem estelionatários herdarão o Reino de Deus.
Nova Versão Transformadora (Mundo Cristão): 9 Vocês não sabem que os injustos não herdarão o Reino de Deus? Não se enganem: aqueles que se envolvem em imoralidade sexual, adoram ídolos, cometem adultério, se entregam a práticas homossexuais, 10 são ladrões, avarentos, bêbados, insultam as pessoas ou exploram os outros não herdarão o reino de Deus.
John Henson, Good As New (O Books): 9 Está na hora de vocês perceberem que pessoas que escolhem não controlar sua conduta não estão prontas para o Novo Mundo de Deus! Estou falando de pessoas que brincam de se relacionar frivolamente, pessoas que adoram coisas ao invés de Deus, que estão a fim de roubar o parceiro alheio, que ganham dinheiro com sexo ou abusam de jovens, 10 ladrões, agiotas, que comem e bebem demais, que ridicularizam os outros. Não se associe com pessoas assim. 11 Muitos de vocês costumavam ser sujos com elas. Agora vocês tomaram um banho, vocês são povo de Deus! Jesus colocou vocês no caminho certo, e a Espírito de Deus vai ajudando vocês na caminhada.

Romanos 1.26-27
Frederico Lourenço, Bíblia – Novo Testamento: Apóstolos, Epístolas, Apocalipse (Companhia das Letras): 26 Foi por isso que Deus os entregou às paixões da desonra: as fêmeas deles trocaram o uso natural do corpo por um que está para lá da natureza; 27 e do mesmo modo também os machos, rejeitando o uso natural da fêmea, abrasaram-se no desejo uns pelos outros, machos nos machos praticando o indecoro e recebendo em si mesmos a recompensa que era devida do seu equívoco.
Bíblia Peshitta (BVBooks): 26 Por esta razão, Deus os entregou a paixões vergonhosas, pois suas mulheres trocaram a função natural de seu sexo e fizeram o que não é natural, 27 e da mesma maneira também seus varões, deixando as relações naturais com as mulheres, deram rédea solta à lascívia uns com os outros, varões com varões, recebendo em si mesmos a justa retribuição por seus erros.
Nôvo Testamento (Herder / Comunidade de Taizé): 26 Por isso, Deus também os entregou a paixões infames: suas mulheres converteram as relações naturais em relações antinaturais. 27 Do mesmo modo, também os homens, abandonando o uso natural da mulher, arderam na volúpia uns para com os outros: homens cometendo torpezas com homens, terminando por experimentar em si mesmo a devida paga de sua extravagância.
Eugene Peterson, The Message (NavPress): 26 O pior veio em seguida. Como se recusaram a conhecer a Deus, logo eles já não sabiam mais como serem humanos – mulheres não sabiam ser mulheres, homens não sabiam ser homens. 27 Confusos sexualmente, eles abusaram e profanaram uns aos outros, mulheres com mulheres, homens com homens – luxúria pura, amor zero. E então eles pagaram por isso, e pagaram caro mesmo – esvaziados de Deus e de amor, trapos humanos sem nenhum dos dois.
Rob Lacey, the word on the street (Zondervan): 24 Então Deus deu um passo para trás e assistiu enquanto o desejo sexual deles os tornava menos que humanos. Eles fizeram o acordo mais estúpido da história: penhoraram o baú de tesouros de Deus por um salto no escuro baseado em mentiras. 25 Eles trocaram Deus por pornô hardcore – e suas feridas servem como prova clara. Eles vivem pelo produto ao invés do Produtor (que merece a maior e mais longa salva de palmas da história, com certeza!). 26 Pergunta: O que Ele iria fazer? Ele estava de mãos atadas; não quis robôs, então que opção tinha? Ele teve que Se afastar e espiar pela janela enquanto a orgia corria solta lá dentro. 27 Ele teve que assistir enquanto a doença do corpo e da alma passava de homem para homem, de mulher para sabe-se-lá-o-quê, um jogo doentio de passa-anel com uma granada armada.

Levítico 18.22
Bíblia Sagrada Africana (Paulinas): 22 Não coabitarás sexualmente com um varão; é uma abominação.
Tradução Ecumênica da Bíblia (Loyola / Paulinas): 22 Não deitarás com um homem como se deita com mulher; isto seria uma abominação.
André Chouraqui, A Bíblia: Ele Clama… (Levítico) (Imago): 22 Com um macho, não deitarás na concupiscência de mulher. É uma abominação.

Levítico 20.13
Teresa Hornsby, A Sexualidade na Bíblia (Cultrix): 13 Quando um homem se deita com outro homem qual se fora mulher, ambos cometem confusão e devem ser executados. Seu sangue está sobre eles.
André Chouraqui, A Bíblia: Ele Clama… (Levítico) (Imago): 13 O homem que se deita com um macho em concupiscência de mulher, eles fazem uma abominação, os dois. São condenados à morte, à morte, seus sangues contra eles.
Tradução do Novo Mundo (Torre de Vigia): 13 Se um homem tem relações sexuais com outro homem, assim como se tem relações com uma mulher, ambos fazem algo detestável. Sem falta devem ser mortos. O próprio sangue deles está sobre eles.



Concluo esta seção sobre versões bíblicas com dois excertos das belíssimas paráfrases poéticas de Leslie Brandt em Epistles/Now. Neste formato, eles não dizem tanto respeito à sexualidade, mas têm a ver com a forma como vivemos nossa fé em verdade. (São compridos, mas valem a pena.)

Romanos 1.18—2.3
(…) No entanto, enquanto buscamos continuar a transmitir o amor eterno de Deus, estamos destinados a proclamar o Seu santo desespero para com aqueles que se recusam a abraçar a graça que Ele proferiu, que não hão de buscar ou aceitar a verdade e que até ousam reprimi-la ou sufocá-la nas vidas dos outros, essas pessoas. Eles se tornaram deuses para si mesmos, essas pessoas, e flertam de forma deliberada com a fúria divina quando beligerantemente dão as costas ao Creador e rebeldemente vão para longe da órbita do amor d’Ele nas suas vidas. Deus ama e sempre há de amar, mas Ele jamais vai forçar ou coagir Suas creaturas a aceitarem Seu amor. Se as creaturas d’Ele estão obstinadas em focar suas vidas em coisas menores que Deus e Seus propósitos, Deus permite a elas a liberdade de viver com tal escolha – mesmo que ela os arraste para fossos de egoísmo e a danação derradeira; e sua liberdade para existirem longe de Deus se torna o próprio tentáculo que as estrangula e destrói. Deus nos concede a fé para reclamar Seu amor salvífico – e a coragem para proclamá-lo – sabendo muito bem que haverá aqueles que escutarão e aqueles que vão duvidar e morrer. Reconhecemos que algumas pessoas, que aparentam se preocupar unicamente com seus próprios conforto e prazer, não querem nem saber de Deus; no entanto, é bom nós tomarmos cuidado enquanto julgamos suas atitudes e ações. Algumas das pedras que tão prontamente jogamos nos outros podem estilhaçar o vidro frágil das nossas próprias mansões presunçosas. Todo pecado está debaixo do julgamento de Deus. Isto inclui as faltas e falhas que saturam nossas vidas tanto quanto os vícios dos ímpios. (…)

1 Timóteo 1.8-17
(…) Numa sociedade onde o crime e a corrupção, o colapso da família e a promiscuidade sexual estão em alta, numa nação onde as estruturas de que mais dependemos estão se desintegrando, é deveras tentador correlacionar leis e regras e ordens ao Evangelho de amor e liberdade que foi proclamado e demonstrado por Jesus Cristo. Nós precisamos ser guiados, e às vezes inibidos, por leis e regras. Ao fazermos delas parte do Evangelho que proclamamos e pelo qual vivemos, colocamos em perigo a nossa fé e promovemos um sistema de crenças que pode corromper a fé de outros. Nossa salvação não vem, nem nosso relacionamento com é assegurado, pela nossa aceitação de regras e ordens específicas, sejam elas tradicionais ou contemporâneas, que vem sendo disseminadas como Evangelho hoje. Somos salvos pela fé, pela nossa total aceitação do que Cristo fez em nosso favor, pelo nosso compromisso com Deus e com Sua vontade para nossas vidas. A lei destina-se aos sem-lei; certo tipo de moralidade precisa ser imposto aos imorais; a ordem, vir a ser forçada sobre os desordeiros; mas os filhos e filhas de Deus estão envoltos e guiados por uma instrução muitíssimo superior, a diretriz do ame-a-Deus-ame-quem-está-ao-redor que vem do coração do próprio Deus, possível apenas para as pessoas que são recipientes do, e participantes do, amor salvífico e perdoador de Deus. Enquanto tentamos estar à altura das leis e regras feitas pelo homem, somos, longe de Cristo, infratores, pecadores, traidores e inimigos de Deus e de Seus objetivos eternos. É enquanto pecadores que somos passíveis do amor salvífico de Deus. Ao mesmo tempo que continuamos pecadores, perpetuamente a receber do perdão divino, nós somos os recipientes do e os canais para o amor de Deus, e somos responsáveis por manifestar um estilo de vida e de viver que vai muito além das leis da nossa terra.


Notas bibliográficas e referências adicionais (muitas delas em inglês, sorry):

[1] O cientista político e cristão protestante Igor Sabino escreveu, já em 2013 e por ocasião do PL 122 (a famosa “lei anti-homofobia”, atualmente arquivada; leia mais na Wikipédia e no site do Senado Federal), um artigo no portal Gospel+, conclamando à igreja evangélica brasileira que aborde a questão homossexual de forma verdadeiramente bíblica, não orientada por guerrilhas culturais. É um excelente ponto de partida.
[2] Mateus Silva*, um rapaz católico e bissexual, e que na época namorava uma moça, reflete sobre as expectativas individuais da mudança da orientação sexual. • Sobre o termo “orientação sexual egodistônica”, pode-se ler o artigo em inglês da Wikipedia para maiores informações, de uma perspectiva crítica e definitivamente secular; no contexto brasileiro, o palavrãozinho veio à tona em 2017 com o juiz Waldemar Claudio de Carvalho e uma liminar para legalizar a “cura gay”.
[3] São poucos os estudos acadêmicos que podem ser referenciados para discutir a eficácia das terapias de mudança de orientação sexual. Um que, apesar de muito controverso, pode ser citado, data de 2007 e foi conduzido por Stanton Jones e Mark Yarhouse (ambos então simpáticos a ministérios ex-gay): Ex-Gays? A Longitudinal Study of Religiously Mediated Change in Sexual Orientation. Os autores acompanharam vários pacientes sujeitados a terapia, ao longo de vários anos; em alguns casos houve sucesso, em outros fracasso, e ainda resultados intermediários. Indico a leitura cuidadosa do livro (ele pode ser comprado como ebook na Amazon); mas também recomendo dar boa uma olhada neste relato pessoal e nesta resenha crítica: além do problema da superestimativa da condição de celibato, os dados brutos recolhidos foram que apenas 13,9% (11 10 dos 72 participantes acompanhados até o final do estudo) tiveram “sucesso” em se tornarem ex-gays/héteros. E vale a pena lembrar: estatisticamente falando, este número não chega a ser significativo: a realidade poderia ser de maior ou menor sucesso da terapia, mas a população amostral é insuficiente (o problema já era crítico mesmo com os 300 participantes iniciais, e só fez piorar quando esse número despencou para um terço, e finalmente para um quarto daquele do tamanho original).
[4] No último capítulo do livro Nascido Gay? Existem evidências científicas para a homossexualidade?, compilado pelo médico pediatra John Tay, o autor discorre sobre a eficácia das terapias de reorientação sexual; e destaca os resultados de um estudo de 2003, que se aproximam dos reportados na nota anterior: de um grupo de 200 indivíduos, composto de 143 homens e 57 mulheres, apenas 11% e 37% respectivamente, foram classificados como tendo atingido a “mudança completa” – em definição estrita (e simplificada), a ausência total de sentimentos, pensamentos e comportamentos homossexuais. Conforme relatado por Tay, o artigo foi duramente criticado na seção de cartas da revista logo após sua publicação, e deixa implícito porém claro que a motivação religiosa pode ser um fator-chave no sucesso dessas terapias. Apesar de ter sido publicado em português pela editora de Silas Malafaia, o livro é de forma geral uma obra instrutiva se analisada com cautela: o autor repassa vários estudos para demonstrar que, na maioria dos casos, os fatores ambientais têm preponderância sobre os biológicos na emergência da homossexualidade; ele pode ser baixado em PDF aqui ou aqui. (Por outro lado, este artigo, que tampouco dispensa uma leitura irrefletida, oferece uma crítica à conceituação problemática sobre sexualidade do evangelicalismo, especialmente para com pessoas trans, presente no discurso de Tay e afins.)
[5] trans pride flag Vale a pena conferir a publicação Tentativas de Aniquilamento de Subjetividades LGBTIs, do Conselho Federal de Psicologia brasileiro, que coleciona vários relatos de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais, a contar trechos de suas vidas e episódios de grande sofrimentos – infelizmente, em muitos casos, motivados por pressões do ambiente religioso. (Ah, uma breve nota ortográfica: transexual escreve-se com apenas um S, não transsexual).
[6] Talvez você esteja se perguntando o que raios é um “webcrente”? É um termo recente, que designa vários cristãos brasileiros que expressam, divulgam e formam opiniões através das mídias sociais (Twitter, Instagram, YouTube, Facebook, etc.); muitos são evangélicos/protestantes reformados e jovens. Confira aqui uma matéria que os explica melhor e apresenta alguns dos mais famosos – nem todos recomendáveis de olhos fechados, no entanto (especialmente não o último da lista) por nem sempre abordar questões de sexualidade de forma dialogal e ponderada.
[7] O cantor e webcrente Matheus Rodrigues deu sua resposta a esta pergunta no CuriousCat. Vale também frisar que ele é um participante ativo e influente da ICGF gelo (Twitter)fogo (Twitter) (vide a última nota derradeira).
[8] Em agosto de 1999, uma foto inédita de dois leões (machos) roçando as jubas afetuosamente estampou a capa da edição #143 da Superinteressante – a que se seguiam, nas páginas internas, mais fotos dos dois “reis dos animais” em várias posições de acasalamento, clicadas na África do Sul pelo paparazzo fotógrafo brasileiro Ricardo Azoury. A matéria apresentou ao público o trabalho do zoólogo Bruce Bagemihl, que documentou o comportamento homossexual em grande número de espécies animais; o redator contou também, em seu blog pessoal, que a matéria foi muito mal recebida por alguns dos leitores. Desde então, a literatura acadêmica sobre o tema tem crescido muitíssimo, bem como o registro amador desse tipo de comportamento.
[9] Uma obra bastante conhecida (e dita útil por muitos jovens que passam pela “luta contra o homossexualismo” e tiveram nela uma de suas primeiras leituras) é o Rumo à masculinidade, de Alan Medinger (disponível como PDF de distribuição livre aqui ou aqui). Este autor (ele mesmo um ex-gay, por algum tempo pulava cerca em seu casamento com outros homens) afirma que a homossexualidade freqüentemente estaria correlacionada com um subdesenvolvimento da identidade afetivo-sexual na infância, um histórico de rejeição nos seus relacionamentos formativos – no caso masculino, do menino em relação ao seu pai (ou figura masculina equivalente) – e que posteriormente, vem a produzir atrasos no amadurecimento posterior. O livro tem seus méritos, mas infelizmente também coopera em reforçar uma versão da masculinidade estereotipada e que é mais definida pela cultura secular do que pelos padrões bíblicos de relacionamentos e santidade.
[10] Todo o capítulo do Catecismo que inclui o trecho relevante (§ 2357-2359) pode ser acessado em português no site sítio web oficial do Vaticano.
[11] Para se aprofundar nos conceitos de estrutura e direção (originalmente apresentados pelo teólogo canadense Albert Wolters) aplicados à sexualidade, recomendamos a leitura do breve e digesto livro Identidade e Sexualidade, de Pedro Dulci – você pode encontrar links para baixá-lo como PDF piratão (e para comprar o ebook para Kindle) logo mais abaixo, na seção de recursos selecionados deste texto.
[12] pride flag Este texto e este post ilustrado prestam-se para explicar acrônimos como LGBT, LGBTQ+, LGBTQIA+ e LGBTQIAPN+, e apresentam ainda outras, abrangendo mais identidades de gênero e expressões da sexualidade humana; enquanto este terceiro aprofunda e estende ainda mais as muitíssimas letras. (Considera-se obsoleta a antiga sigla GLS, “gays, lésbicas e simpatizantes” – atualmente prefere-se chamar estes últimos de “aliados”.)
[13] Uma pesquisa sobre a população LGBTQ+ dos Estados Unidos, encomendado em 2017–2018 pelo aplicativo Hornet (que tem como público-alvo homens que fazem sexo com homens), trouxe o seguinte: tais pessoas perfazem 13% dos indivíduos maiores de idade (sendo 7% os “LGBT”; e, 6% os “Q+”, ali definidos assim: pessoas que ❝listam sua orientação como “heterossexual”, mas – em termos de atração sexual, comportamento e identidade tomada para si – vivem fora dos limites estritos da heteronormatividade❞ e cujos ❝atitudes, comportamentos e padrões de consumo se alinham de forma mais próxima com a comunidade LGBT do que com a população hétero com a qual eles freqüente e erroneamente são agrupados❞); o estudo também aponta para uma redução gradual, ao longo das gerações, das pessoas que se identificam como “exclusivamente heterossexuais”; e um incremento no número de indivíduos que “rejeitam identidades binárias” (agrupando bissexuais e “Q+” como categorias de sexualidade fluida).
[14] A princípio, pode-se pensar que “bissexual” é alguém que “se sente atraído(a) por homens e mulheres” – essa definição é simplista e, bem… (especialmente por não levar em conta as identidades de gênero não-binárias) hoje considerada obsoleta e incorreta. Uma forma melhor de diferenciar bissexualidade e pansexualidade pode ser: o primeiro descreve a atração por dois ou mais gêneros, inclusive o seu próprio, enquanto o segundo abrange todos os gêneros possíveis ou simplesmente quando se atrai independentemente deles (e no caso de alguém polissexual ou multissexual, a atração dirige-se a muitos gêneros mas não todos). Na verdade, algumas pessoas entendem que dizer “atração homossexual” ou “atração bissexual” é uma simplificação quase grosseira da realidade para alguns indivíduos. · Esta figura apresenta bem os diversos tipos de atração que podem ser reconhecidos; também este artigo wiki aborda os vários gêneros que podem ser reconhecidos; e, um outro site complementa com mais definições sobre gênero e sexualidade. • E pelamor de todos os deuses, evite as expressões escabrosas “opção sexual” ou “preferência sexual”. • Em tempo: há estudos atestando que bissexuais podem passar por mais bads e ter mais problemas de saúde mental comparados a gays, lésbicas e heterossexuais.
[15] O teólogo queer Robert Goss, pastor de uma Metropolitan Community Church (afirmativa) em Chicago, sugere que o apóstolo Paulo teria sua própria homofobia internalizada – o que explicaria a forma como ele argumenta de forma apaixonada contra o tema na epístola aos Romanos. Goss diz isso em Queering Christ: Beyond Jesus Acted Up – disponibilizado online em espanhol com o título Haciendo a Jesús Queer: Más Allá del Reformador Activista (confira a partir da pág. 13). Devo dizer que NÃO gostei de muita coisa neste livro, é liberal demais pro meu gosto; mas achei que as observações dele sobre Paulo podem ser dignas de alguma consideração.
[16] Se você quiser ler pra valer, duas dissertações de mestrado: para uma interpretação progressista (Lado A) de Levítico, confira a de Dallmer de Assis; para uma visão tradicional (Lado B), recomendo a de Frederico Franco.
[17] O blog Também sou cristão – Gay CCB, de posicionamento mais Lado A, faz neste post no Facebook uma defesa típica mas bem articulada da tal reinterpretação histórica contextualizada dos versículos polêmicos. · Como curiosidade: John Goode*, o autor (não-cristão) da série Tales From Foster High, no livreto extra Dear God, apresenta sua interpretação progressista da Bíblia, por meio de um padre católico fictício; neste trecho, Goode* mostra como entende as passagens do Novo Testamento sobre o tema. • Aunque esta página sea voltada a los seguidores de Jesucristo tradicionales y que hablan portugués, aquí tendréis un considerable recurso para ❝cristian@s unid@s contra la LGBTfobia❞ desde la posición inclusiva (Lado A) en español: el riquísimo sitio web Cristianos Gays – en la barra lateral se incluyen enlaces a iglesias y comunidades cristianas, sugerencias de libros y publicaciones, noticias de España y Latinoamérica, etc.
[18] Caso você tenha estranhado: gostei de quando li o espiritualista Huberto Rohden defender a grafia arcaica do verbo “crear” para descrever os atos creativos (especialmente o creatio ex nihilo) de Deus (bārāʾ בָּרָא), em contraposição ao “criar” como atividade humana (gado, filhos, coragem, etc.). Adotei, e aplico também na maioria das palavras derivadas (“Creador”, “Creação”, “creaturas”, “creacional”, …).
[19] O escritor e palestrante cristão Dave Hopwood escreveu um texto curto intitulado “Adam’s Best Mate” (“O Melhor Amigo de Adão”, em inglês britânico) – belíssimo e pungente, Dave imagina como seria a relação de amigos próximos de que Deus e Adão gozavam antes da Queda, antes mesmo que Eva fosse formada (este e outros excelentes textos inspirados em passagens bíblicas estão na sua The Bloke’s Bible). • Ainda: em outra postagem, o Também sou cristão – Gay CCB trouxe uma reflexão oportuna sobre a freqüente imposição do celibato aos cristãos com AMS. · Para fechar com chave de ouro: falecido em 2013, o Pe. Jaime Snoek foi pioneiro, já na década de 60, da abordagem amorosa da “homofilia”, bem como na defesa dos homossexuais então considerados “degenerados, perversos e criminosos” – desaconselhando o matrimônio como solução mágica e reforçando a suma importância das amizades fiéis. Mais adiante, no livro Ensaio de Ética Sexual (1981), depois de uma investigação pormenorizada da sexualidade humana, o Pe. Snoek pondera que uma relação homoafetiva monogâmica em amor constitui, a seu ver, um mal menor que a promiscuidade: ❝(…) Ora, não resta dúvida de que a sexualidade só alcança sua plena expansão em reciprocidade com um parceiro do sexo oposto. Mas, onde este ideal, por força maior, não é possível, onde o celibato é impraticável – a própria estrutura homossexual, que não encontra nenhuma identificação na cultura, torna o desejo sexual mais incontrolável – onde concretamente a alternativa é entre contatos epidérmicos, degradantes, ou uma relação amorosa na qual se pode atingir certo grau de humanidade, alguma companhia na solidão, algum sentido para vida e para o trabalho, este relacionamento passa a ter um sentido positivo. Evidentemente, não é perfeito, é um balbuciar. Mas, afinal, estão fazendo o que podem, do melhor modo possível.❞ (pág. 284)
[20] O Evangelho de Tomé é um livro apócrifo do Novo Testamento, possivelmente datando do século II d.C., que não foi incluído na Bíblia e nem é aceito pela vasta maioria dos cristãos por causa do teor gnóstico percebido nele. Um dos principais defensores do valor desta obra foi o controverso estudioso John Dominic Crossan; uma equipe composta por ele e outros teólogos liberais, o Jesus Seminar, propôs-se a decidir (um tanto presunçosamente) quais palavras de Jesus encontradas nos evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), mais Tomé, seriam “mais verdadeiras”, avaliando frase a frase e dando seus votos subjetivos sobre a legitimidade de cada uma (mais tarde, o trabalho foi posteriormente publicado num livro intitulado The Five Gospels: What Did Jesus Really Say?). • Avançando alguns anos no tempo, deparamo-nos com John Henson, que incluiu o Evangelho de Tomé em Good As New, sua própria apresentação do Novo Testamento (e divide-o em quatro “capítulos” – que adoto aqui), e se esforça por trazê-lo ao leitor removida a tônica gnóstica; aqui estão links para a introdução a Tomé e a paráfrase de Henson (retorno a ela numa próxima nota). Uma defesa mais articulada e ortodoxa de Tomé é feita pelo aposentado Antonio Sérgio Valente, cuja obra harmoniza Tomé com os quatro evangelhos bíblicos. Aqui vai uma dica para os hispanohablantes: para explorar mais a fundo as palavras de Jesus encontradas fora dos quatro evangelhos canônicos, uma excelente recomendação é a obra de Joachim Jeremias, Palabras Desconocidas de Jesús, de leitura leve e agradabilíssima na tradução do alemão para o espanhol; na segunda metade do primeiro capítulo o autor examina o variado material disponível (e perto do final, lista alguns trechos extrabíblicos que poderiam ter certo valor).
[21] As pouquíssimas traduções em português que optaram por «Deus é caridade» ficam por conta de: duas traduções católicas, a do Pe. Mattos Soares e a do Pe. António Pereira de Figueiredo (ambas feitas a partir da Vulgata latina); e para minha supresa, também a queridinha dos evangélicos conservadores, a Almeida Revista e Corrigida (que tomou por base o Textus Receptus) nas primeira e segunda edições (1969 e 1995; a terceira e mais recente data de 2009). • A ênfase absolutizante no “amor acima de tudo” (silogismo, advindo do mantra “Deus é amor”) se torna particularmente perniciosa quando o Evangelho (“Boa-Nova”) se torna indistingüível da Thelema (“Vontade”), cujo profeta é Aleister Crowley: «Aparecei, ó crianças, sob as estrelas, & saciem-se de amor! Eu estou sobre vós e em vós. Meu êxtase está no vosso. Meu prazer é ver vosso prazer. (…) A palavra da Lei é thelema. (…) Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei. A palavra de Pecado é Restrição. (…) Não há laço que possa unir os divididos a não ser o amor: todo o resto é blasfêmia. (…) Amor é a lei, amor sob vontade. (…)» (Liber AL vel Legis 1.12-13,39,40-41,57 – para se arrepiar (mais), prossiga e leia 3.14,18-19,50-56).
[22] Tenho conhecimento de poucas edições inclusivas ou afirmativas da Bíblia, e menos ainda que valham a pena discutir. No Brasil, tivemos a famosa Bíblia Comentada Graça sobre Graça (GsG), editada por Marvel Souza, pastor metodista, inclusivo e afirmativo, e casado com outro homem (também pastor). Ela está disponível para Kindle, em PDF (pirata) e como app para Android. Ao contrário do que se disse num bafafá de difamações, sua edição não mexe na letra do texto bíblico; são nos seus comentários e notas aos “versículos do quebra-pau” que ele afirma que as passagens de Levítico e Romanos visariam na verdade o sexo extraconjugal (e naquele contexto, heterossexual). • Voltando alguns anos no tempo e indo para o outro lado do mundo, na Austrália, em 2007, uma tal Dr.ª Ann Nyland, estudiosa do grego clássico e até então desconhecida do grande público, lançou o Study New Testament for Lesbians, Gays, Bi, and Transgender, with extensive notes on Greek word meaning and context, baseado na sua própria tradução intitulada “The Source” (“A Fonte”, 2004). Apesar da capa colorida, o livro não é tããão chocante ou heterodoxo quanto dera a primeira impressão de ser; para defender que as Escrituras não condenam a homossexualidade, a autora ora apresenta uma argumentação já conhecida e comum, ora noutros momentos soa uma baita via(da)gem na maionese: ela propõe que o sexo não-natural em Romanos 1.26-27 e em Judas 1.7 na verdade referir-se-ia a humanos, especialmente mulheres (as “filhas dos homens” de Gênesis 6.1-4) que foram violentadas(os) e seduzidas(os) por uma classe específica de anjos caídos (e tiveram como prole híbrida os nefilins – ou “gigantes”, em outras traduções): os “vigilantes”, que recebem destaque em 1 Enoque, um dos livros apócrifos citados na epístola do primo meio-irmão de Jesus (aliás, a Dr.ª Nyland demonstra particular interesse por esses livros e pelos vigilantes caídos, já tendo publicado várias publicações sobre esses temas). · Se você também se interessar por esta linha interpretativa, este breve texto fala mais dos vigilantes em Gênesis, 1 Enoque e nalgumas cartas do Novo Testamento; para mergulhar de cabeça, tem também este post escrito por um testemunha-de-jeová (cuja teologia oficial adota essa narrativa como doutrina). • Há também a Good As New de John Henson, mas esta merece não apenas uma mas duas notas à parte, mais a seguir.
[23] church Para uma visão panorâmica razoavelmente equilibrada, global e histórica, da relação da religião cristã com a homossexualidade, uma boa pedida é ler os respectivos artigos da Wikipédia em inglês e em francês (para versões traduzidas automaticamente, voilà: aqui e aqui).
[24] Esta matéria, um tanto sensacionalista e exagerada, menciona a existência de alguns cristãos e cristãs antigos que popularmente supõe-se talvez terem sido gays e lésbicas; dentre eles, merecem destaque os santos Sérgio e Baco, dois oficiais romanos de alta patente do século III d.C. que teriam sido torturados e condenados à morte depois de se tornarem cristãos (há dúvidas quanto à existência histórica deles).
[25] Você sabia que existe uma suposta versão gay do livro de Cantares ou Cântico dos Cânticos? Pois é! Um tal Dr. Paul Johnson, após olhar uns manuscritos de Qumran, afirmou que o livro bíblico havia sido entendido errado (indo na contramão de toda a múltipla e vasta exegese e hermenêutica bíblica produzida até então): na verdade descreve a serenata de amor de Asher, filho de Salomão, para seu amado, o pastor de tez escura Caleh; depois, a tradução foi reaproveitada, retraduzida e republicada na Itália pelo ativista gay Massimo Consoli, que morreu de câncer de cólon (e o livro, agora pode vir a calhar como um presente deem grego!). tongue wink Trechos dessa “(des)tradução bíblica” podem ser encontrados, com dificuldade, em inglês e em italiano. Um comentador, que se apresentou como artista, calígrafo, e tradutor de hebraico, deu o veredito: é fake. É uma fraude: ❝O que temos aqui não é uma tradução. É uma fanfic . A defesa de causas legítimas deve ser feita a partir da justiça delas, não de traduzir errado poesia antiga. Fazer qualquer outra coisa é um desserviço tanto à justiça quanto à literatura. Crianças, sempre confirmem suas fontes.❞ (ênfases acrescentadas). · Em tempo: a Rev.ª Dr.ª Angela Yarber postulou, com base no estudo da dança do ventre e fazendo inferências cruzando hebraico e árabe, que a pessoa que admira a sulamita seja outra mulher.
[26] Residente de Goiânia, GO, o presbiteriano Rev. Hélio Silva publicou o livro Jônatas, O Amigo de Davi e também extensivamente em seu blog, explorando a ligação entre Davi e Jônatas como modelo cristão de uma amizade edificante e saudável. • Já o blogueiro ateu Marco Aurélio retrata o conhecido bromance de Davi e Jônatas como uma mera e animada amizade masculina; aliás, esse cara escreveu sua própria “versão” escrachada da Bíblia (com um humor de rolar de rir; mas também com abundância de palavrões e infelizmente volta e meia retrata o Senhor Deus veterotestamentário como um deus ruim – todavia, suas caricaturas dos personagens bíblicos humanos são engraçadíssimas): nuns outros textos, satíricos ad absurdum, ele também reimagina José como uma “bicha” afetada, para cima e para baixo com sua túnica fa-bu-lo-sa – enquanto a turma do Casseta & Planeta encarregou-se de produzir sua própria paródia gay do Gênesis (depois publicada num livro), estrelando o casal primevo Adão e Amílcar.
[27] John Henson é um pregador batista aposentado e polêmico, que publicou a paráfrase bíblica Good As New: sua própria re-edição radical do Novo Testamento (disponível para acesso livre aqui ou aqui, e também à venda) – entre outras alterações ousadas, ele: acrescenta ao “seu” cânone o Evangelho de Tomé; removeu o livro de Apocalipse e várias epístolas (incluindo as pastorais, que por conhecedência contêm um punhado dos “versículos do quebra-pau”); e, sua versão de Romanos 1 desfigura por completo o texto paulino para tentar tornar a homossexualidade aceitável. · Do lado mais positivo, sua melhor contribuição (para maior profundidade, vide a pág. 129 deste outro livro dele, The Love Line) é a genial sugestão de que, quando o eunuco etíope (evangelizado por Filipe em Atos 8.26-40) leu a passagem sobre o “servo sofredor” de Isaías 53.7-8, é provável que ele tenha se fascinado pelo texto que lhe fez lembrar a sua própria castração forçada! É também a ele que devo a observação sobre o servo do centurião romano, embora ele pareça entusiasmar-se demais ao colorir uma relação homoafetiva entre os dois. · Cito mais algumas opções controversas mas interessantes dele: o uso do gênero gramatical neutro para Deus o Pai (em inglês: Parent ao invés de Father); Jesus é, claro, tratado com pronomes masculinos (após o seu batismo em Marcos 1.11 / Lucas 3.22b, ouve-se a Voz dizer: «Esse é o Meu garoto! Você está indo bem!» na versão de Henson – aliás, o brasileiro Gilberto Chagas Jr. também faz o mesmo; já os títulos “o Filho do Homem” / “o Filho de Deus” viram “a Pessoa Completa” / “a Verdadeira Semelhança de Deus”); e, seguindo o gênero feminino de rūaḥ רוּחַ no hebraico, oa Espírito Santo recebe pronomes femininos – como também fez William P. Young no bestseller A Cabana com Sarayu, que é a personificação feminina (e asiática) do Espírito Santo no livro e no filme.
[28] O blog Ragamuffin Ramblings (em inglês) publicou uma paráfrase absolutamente brilhante do episódio de João 4.1-42, trocando a província da Samaria pelo bairro de Boystown em Chicago, e a mulher samaritana e desquitada por um garçom gay e muçulmano – traduzi(do) para o português aqui (e duplicado aqui). · Também com samaritanos e garçons em mente, o saudoso poeta brasileiro Rubem Alves brinda-nos com a bela “Parábola do Bom Travesti”, encontrada em seu livro Perguntaram-me se acredito em Deus e online em duas versões (esta segunda é apócrifa e acrescenta, ao padre católico e ao pastor evangélico, um líder espírita).
[29] Se você não gostou da minha fala sobre a posição inclusiva ou progressista: lo siento, pero que usted luche. Desculpe, mas não consigo evitar pensar e citar algumas tirinhas antológicas do Um Sábado Qualquer: da customização de Deus e das igrejas, até cada um chegar na sua própria “interpretação que é certa para mim”. · A sugestão do cartunista Carlos Ruas é que cada um investigue e dialogue continuamente (clique na imagem no final da página para ler esta tirinha djá).
[30] Numa versão anterior deste texto, trazia “aceitam sua condição de desejo pelo mesmo sexo” (ênfase alterada) – retifiquei e mudei desejo para atração, porque enquanto esta é involuntária e freqüentemente foge ao nosso controle (independente da orientação sexual; e até mesmo de se ter ou não outra pessoa como objeto do desejo), o primeiro tem a ver com cobiça, com ações conscientes. (E se você se perguntar… O que é Desejo?… Neil Gaiman em Sandman responde.) · O microblog Rejoicing in Celibacy and Chastity postou, entre muitas outras, estas duas pérolas: uma perspectiva do Lado B sobre as atrações sexuais não serem pecaminosas em si mesmas; e um encorajamento para que os cristãos usem sua ativamente atração pelo mesmo sexo para edificação mútua (ambas em inglês). · Também, o então universitário Jay* tinha um blog que foi formativo para mim, Adventures of a Christian Collegian – recomendo muitíssimo lê-lo. Na postagem de destaque a seguir, ele explica como encarava, enquanto jovem cristão, sua “identidade gay” – e agradece muito à blogueira do Disputed Mutability (agora fora do ar) pela discussão da identidade postada como pe·nt·al·og·ia (cada par de letras linka a cada um dos posts, arquivados pelo Internet Archive).
[31] Meu primeiríssimo contato com um conceito rudimentar que eu depois viria a desenvolver e reconhecer como Lado B deu-se com o livro Trindade: Quando a Igreja se cala para a AIDS, de 1994 (hoje raro, mas ainda encontrável em sebos), que conta a história de dois seminaristas católicos que se apaixonam um pelo outro – e não podem levar adiante o seu romance porque um deles havia contraído o HIV. Em uma das cenas, quando este está acamado e gravemente doente, e não quer contaminar o amigo-amado, o outro lhe responde: ❝Te amo tanto que posso controlar meus instintos para não te fazer mal❞ (dá pra espiar um tiquinho de nada aqui). Na minha leitura, reinterpretei o “não te fazer mal” como o sexo homossexual em si: e foi a partir daí que comecei a formar meu pensamento cristão sobre homossexualidade (contribuiu também neste sentido um post do usuário LeNnY_B* no LiveJournal, now long forgotten and forever lost).
[32] Dois élderes e líderes mórmons, foram entrevistados em 2006 «no tocante à questão do casamento especificamente e do homossexualismo em geral» – é interessante frisar que este é um grupo que dá importância extrema ao casamento, ao ponto de terem até mesmo um sacramento e uma doutrina muy peculiares, o “casamento eterno”. A despeito disso, sua fala representa bem a forma razoavelmente equilibrada com que A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias tenta encarar a temática, embora na prática haja muita controvérsia – e ilustra uma interpretação bíblica tradicional possível.
[33] Outras variações de design do emoji de abelha (honeybee) podem ser conferidos na Emojipedia. · Por uma curiosa coincidência, “bee” em português também pode ser uma gíria gay (de “beesha”, corruptela de “bicha”).
[34] O blogueiro Ross Neir reuniu a nata dos livros já publicados da perspectiva do Lado B (muitas vezes também justaposta ao Lado Y), bem como outras boas sugestões de materiais. · Já a homepage Side B & Chill é para quem prefere o formato audiovisual, com os melhores vídeos e episódios de podcast introdutórios e específicos alinhados com o Lado B. Importante: é necessário ter pelo menos um nível intermediário de inglês para aproveitar bem estes recursos, por ora disponibilizados sòmente em inglês.
[35] Adiciono uma nota pessoal aqui: eu por um tempão senti falta de histórias reais de cristãos com AMS que tivessem optado pelo celibato de forma vitalícia; só nos últimos anos estou tendo o privilégio de conhecer alguns. Até então, um dos melhores exemplos viera da ficção literária: o bruxo Alvo Dumbledore, o diretor très chic de certa escola de bruxaria na Inglaterra fictícia de J.K. Rowling. Indico: este artigo (em inglês) da católica Regina Doman sobre homossexualidade e o estilo de vida homossexual; este trecho do livro How Harry Cast His Spell, de John Granger, que explora um pouco da história por trás da saída do armário póstuma de Dumbledore; e finalmente, este artigo (em português) de Guilherme Boneto no fansite brasileiro Potterish (entre outros), que destaca a humanidade do ❝maior bruxo que a humanidade já produziu❞.
[36] No Reddit, estes dois redditores se identificaram como Lado A e afirmam-se celibatários (por razões distintas): o católico romano kuchikomoji* e o episcopal curnonutah*; vale muito a pena ler! Ainda no subreddit GayChristians, em resposta a um jovem indeciso mas mais inclinado ao Lado B, curnonutah* relata um pouco mais das suas motivações, decisão e trajetória. · De forma parecida, o brasileiro autor de Também sou cristão – Gay CCB, tendo crescido na igreja Congregação Cristã no Brasil, respondeu a uma usuária que comentou em sua página e falou da sua história e decisões pessoais com relação à sua AMS. · Ainda, a Revista Junior (2007–2015), que era voltada para o público homossexual masculino, trouxe em 2010 um breve dossiê sobre alguns gays que pararam de transar.
[37] Um dos maiores grupos virtuais (senão o maior, em inglês) chama-se A Side B Community (ASBC), “Uma Comunidade Lado B”. O grupo no Facebook é secreto e fechado, exclusivo para quem se adota a posição do Lado B (com margem de acolhimento aos do Lado Y também); e só é possível entrar por meio de convite. Uma das diretrizes da comu estabelece que, ao mudar de posição (muitas vezes para uma afirmativa), a pessoa deve comunicar sua situação aos demais e remover a si mesma do grupo. Foi o que fez Derek, na sua despedida reproduzida em seu Tumblr. · Pouco antes de zarpar, ele participara da conferência Revoice; e a seguir ofereceu suas contribuições honestas e válidas sobre como ele vê os Lados A e B: aliados cristãos.
[38] Página original do Bridges-Across the Divide sobre os Lados A e B, datada de 2007 (arquivada pelo Internet Archive).
[39] Parte dois de três mensagens, esta com o subtítulo “Bridges Across the Divide”, publicadas numa antiga newsletter datando de 1997; a autora começava a esboçar uma tentativa de diálogo entre as posições denominadas “pró-gay” e “ex-gay”.
[40] The Great Debate”, como era apresentado na Gay Christian Network, contendo links para os textos originais escritos por Justin Lee (Lado A) e Ron Belgau (Lado B); a última vez que a página esteve online foi em 2017 (arquivada pelo Internet Archive). Em 2018, Justin Lee e Ron Belgau publicaram versões atualizadas de seus respectivos ensaios em seus websites pessoais.
[41] Como é possível ver em sua newsletter, a proposta atual da Q Christian Fellowship é superar o debate entre os Lados A e B em nome da comunhão – com direito à nova página intitulada “The Great Communion”. · O documento oficial “Affirmation Guide for Spirituality & Sexuality” (link alternativo) elenca, com uma baita liber(ali)dade, como igualmente passíveis de discussão cristã o sexo antes/fora do casamento, não-monogamia e poliamoria, juntinhos com as práticas virtuosas da hospitalidade e do celibato – sobre o qual, depois de mencionar que ❝padres e freiras católicos, alguns dos quais tragicamente foram responsáveis por abusos sexuais❞, o texto esforça-se por validar as crenças dos cristãos do “Lado B sensu GCN/QCF” – que são divididos em três grupos: um que vê na AMS parte da condição decaída (brokenness) humana; um segundo identificam o papel central do casamento hétero; e o último, entende que a história bíblica proíbe ter sexo com o mesmo gênero (julgo que, embora com sobreposições, essas categorias talvez aproximem-se das descrições para Y, C3 e B, respectivamente). ❝Estes três grupos, e especialmente aqueles que defendem que o casamento heterossexual retrata algo crucial acerca de Deus e que a Bíblia proíbe a atividade sexual com o mesmo gênero, colocam a aliança com a Escritura no primeiro plano da vida cristã.❞ (pág. 37-38, ênfase acrescentada)
[42] Muitos líderes neopentecostais (e também diversos pentecostais) freqüentemente associam demônios como fator ou causa espiritual do “homossexualismo” em pessoas suscetíveis Luci bravo – é possível ouvir esse tipo de discurso de Marcelo Crivella e Edir Macedo – que, aliás, no site oficial da Igreja Universal do Reino de Deus, apresenta depoimentos de duas ex-lésbicas (falando nisso, há até um artigo avalia a estreita relação entre demônios, mulheres e homossexuais nessa seita). • De outro ângulo, uma possível contribuição espírita ao debate (que tradicionalmente encara os desvios da sexualidade como etapas necessárias para a evolução espiritual de alguns indivíduos) pode provir do médium Divaldo Pereira Franco, que na obra Sexo & Consciência, cita uma psicografia sua para oferecer esta impressionante “previsão científica” sobre a situação sexual atual: ❝Aliás, pensando no aspecto da homossexualidade como um fenômeno social, no livro Sexo e Obsessão, que foi publicado no ano de 2002, há uma frase que poucos leitores com os quais eu tive contato conseguiram perceber. [O espírito] Manoel Philomeno de Miranda afirma que o número de pessoas homossexuais iria aumentar muito nos próximos anos, chamando a atenção de psicólogos e outros pesquisadores para esse fato, merecendo estudos mais profundos que possam abordar o tema sob novos enfoques. E esse aumento se deve exatamente ao mau uso da sexualidade pelos heterossexuais no passado reencarnatório.❞ (pág. 153 no PDF / pág. 212 no livro impresso; ênfases acrescentadas). Embora eu pessoalmente não acredite na tese das reencarnações para o aperfeiçoamento do espírito, à la doutrina do espiritismo kardecista-chiquista, acho intrigante e fascinante a possibilidade proposta: que o comportamento sexual de uma geração pode, por algum mecanismo espiritual, produzir conseqüências graves nas próprias almas da geração seguinte.
[43] Na verdade não apenas entre os cristãos: as principais religiões abraâmicas monoteístas, de forma geral, tendem a proibir e condenar a prática do coito homossexual, especialmente a sodomia (e também a pederastia). · Um grupo de apoio para muçulmanos fez uma pesquisa informal entre os seus participantes (em inglês), que evidencia que as dificuldades e necessidades encontradas são similares às de cristãos (e judeus) com AMS.
[44] Uma publicação oficial da Sociedade Torre de Vigia, dos testemunhas-de-jeová, faz uma associação direta entre masturbação e homossexualismo (em português). • Já o excelente blog Rejoicing in Celibacy and Chastity, de posição Lado B e cujo autor anônimo escrevia no Tumblr entre 2011 e 2013, trouxe uma reflexão profunda (com sugestões práticas) sobre a questão da masturbação. Adicionalmente, o perfil The Scriptures Don’t Condemn Homosexuality (cujo autor anônimo, Lado A e g0y, postava no WordPress e também no Tumblr) produziu um estudo demonstrando que o pecado de Onã em Gênesis 38.6-10 não fora a masturbação (ele foi morto por Deus por recusar-se a fecundar sua cunhada viúva e assim dar descendência a seu irmão).
[45] O Joel 2:25 é um ministério evangélico com presença no Brasil; seu nome vem da comparação das ondas de peste de gafanhotos descritas nessa passagem de Joel, com a história de muitas pessoas ❝que têm de lidar com a atração indesejada pelo mesmo sexo❞. Em suas páginas que tentam explicar cientificamente as homossexualidades masculina e feminina, recebem destaque as explicações do Dr. Joseph Nicolosi e outros grandes nomes endeusados pelos defensores da terapia reparativa ou reintegrativa.
[46] Caso se queira evidência dessa mentalidade tacanha, infelizmente reinante no meio evangélico brasileiro, basta conferir o trabalho deste pesquisador (publicado en español): ele leu e examinou os comentários feitos numa matéria do jornal Folha de S.Paulo sobre o livro Entre a Cruz e o Arco-Íris, de Marília de Camargo César – baixe-o como ebook (ePub e MOBI) ou PDF (porque infelizmente tá difícil de encontrar em lojas).
[47] Neste TEDx Talk leve porém sensacional (com áudio em inglês e legendas em português), o palestrante Dr. James O’Keefe fala dos papel e importância dos invivíduos homossexuais na manutenção da coesão familiar e social – aliando conhecimento científico sólido, à sua própria experiência com seu filho gay.
[48] Uma matéria (em inglês) sobre as pesquisas mais recentes até o momento (confira esta nota de divulgação) destaca o seguinte sobre os fatores biológicos envolvidos na homossexualidade (ênfases acrescentadas): ❝(…) Com múltiplos genes candidatos a serem ligados à homossexualidade, parece altamente improvável que um único gene “gay” exista. Esta ideia recebe apoio de um novo estudo, que identificou cinco loci genéticos que se correlacionam com a atividade homossexual: dois aparecem em homens e mulheres, dois apenas em homens, e um apenas em mulheres. Eu acho intrigante que alguns dos genes identificados em homens no estudo de Ganna estejam associados com o sistema olfatório, uma descoberta que tem paralelos com a pesquisa com ratos. O grupo de Ganna encontrou outras variantes genéticas que podem estar associadas à regulação de hormônios sexuais, que outros pesquisadores já haviam sugerido ter um papel significativo em moldar o cérebro de formas que influenciam o comportamento sexual. (…) Embora não haja um “gene gay” singular, há uma evidência esmagadora da base biológica para a orientação sexual, programada no cérebro antes do nascimento e baseada numa combinação de condições genéticas e pré-natais, nenhuma das quais pode ser escolhida pelo feto.❞ · Já a brasileiríssima Revista Pesquisa FAPESP publicou na mesma época uma excelente matéria sobre o último estudo; a seguir, alguns trechos selecionados (ênfases acrescentadas): ❝Um amplo estudo sobre a influência dos genes no comportamento homossexual humano foi publicado na revista Science no final de 2019 e indicou a existência de milhares de variantes genéticas comuns a indivíduos que se relacionam com pessoas do mesmo sexo, com destaque para cinco trechos de cromossomos. Mesmo reunidas, essas variantes explicariam o comportamento em 8% a 25% das pessoas analisadas – nas demais, estariam presentes fatores de ordem cultural ou ambiental. (…) De acordo com o estudo, essa contribuição conjunta de diversas variantes genéticas é semelhante à observada em outras características complexas, como a estatura, e sugerem que o comportamento homossexual é uma parte normal da variação humana. “Não existe um gene gay”, disse à revista Nature o geneticista Andrea Ganna, autor principal do estudo. Segundo ele, é impossível prever se um indivíduo será homossexual olhando para a genética. A influência da genética no comportamento homossexual já havia sido alvo de outras pesquisas, mas nunca com base em um volume tão grande de dados. (…) os indivíduos analisados têm, na maioria, ancestralidade europeia, então é imprudente generalizar os resultados para outras etnias; o trabalho trata de comportamento, não de orientação sexual; e seu escopo não permite tirar conclusões sobre outros aspectos da complexa sexualidade humana. (…)❞
[49] Hoje em dia, a posição mais comumente encontrada no Brasil, especialmente entre os evangélicos, é o Lado Y ou alguma variação dele – que na medida do possível têm mais cautela com os palavrões “cura gay”, “ex-gay” e “ex-trans”. · Entre os entusiastas que ainda restam do movimento ex-gay em nosso país, que abraçam esta palavra (neste texto apelidados com as letras do Lado X e também C3): a ênfase no casamento forçado é aparentemente reduzida (ou maquiada), e os métodos usados para “reverter” o “homossexualismo” não seriam hoje tããão agressivos e desumanos quanto os praticados no passado (embora alguns digam que há na verdade calúnia e exagero por parte da militância LGBT); eles também afirmam estarem crescendo – e (infelizmente) recebem apoio (até a nível federal!) dos evangélicos no poder. · Justin Lee, o fundador da Gay Christian Network original e um cristão conservador de posicionamento Lado A, recomenda uma abordagem de escuta e compaixão para com essas pessoas, ao mesmo tempo que vê nelas um grande conflito interno que, algum dia, irá eclodir.
[50] blob trash No Brasil, a “cura gay” já foi ridicularizada por certos programas de humor; nos Estados Unidos, um dos encontros anuais da antiga GCN teve a surpresa do divertidíssimo musical “Straight to Heaven”, que contou com a atuação do fundador Justin.
[51] A pesquisadora Tanya Erzen publicou em 2006 o livro Straight to Jesus: Sexual and Christian conversions in the ex-gay movement, onde reúne as histórias de numerosos crentes que recorreram a um ministério ex-gay na América do Norte, que lhes acenava com a promessa de uma transformação religiosa. Sua pesquisa mostrou o que e fato acontecia por trás das cenas neste tipo de ambiente.
[52] Isabela Boscov, que sempre redige ótimas resenhas de filmes para a Veja, escreveu de forma brilhante em 2006 (a propósito do terceiro filme da franquia X-Men): ❝(…) Num mundo dividido de forma já bastante incômoda entre os seres humanos comuns e os mutantes, uma empresa farmacêutica anuncia ter encontrado a cura para o gene X, mediante uma simples injeção. Acende-se então um debate: ser mutante é ser doente, ou apenas ser diferente? E, nesse caso, “curar” um mutante não seria um ato de fascismo? Um dos méritos de [X-Men 3:] O Confronto Final (…) é oferecer a esperada cota de ação e aventura sem trivializar essa questão da diferença, tão crucial para o último século – desde a Alemanha de Hitler até a presente fobia anti-Islã e ao cerco à homossexualidade pelo conservadorismo americano. X-Men preserva os ecos de todas essas caças às bruxas, e acerta principalmente em indicar que elas são ainda mais perigosas quando nascem não do ódio declarado, que se pode combater de frente, mas das boas intenções. Tudo o que o inventor da “cura” do gene X quer é tirar seu próprio filho, um mutante, do sofrimento em que se perderam sua infância e sua adolescência.❞ (ênfases acrescentadas)
[53] Nos Estados Unidos, o JONAH (Jews Offering New Alternatives for Homosexuality/Healing) teve sua atuação cassada judicialmente depois de denúncias de abuso por parte do líder do movimento, que oferecia “tratamento” para judeus com AMS. · De forma similar, no Rio de Janeiro, o MOSES (Movimento Pela Sexualidade Sadia) atuou no início da década de 2000 sob a liderança do ex-gay Sergio Viula – que, algum tempo depois, famosamente assumiu-se “ex-ex-gay” e denunciou seu próprio movimento como uma mentira blob grimace. Uma matéria de Época coletou e expõe as histórias tristes de várias pessoas que recorreram a entidades como o G.A. (Grupo de Amigos) e o JOCUM (Jovens Com Uma Missão) para serem “curadas” de sua homossexualidade – e, sem sucesso, se afastaram e hoje duvidam da idoneidade delas. • De volta à Gringolândia, quando do encerramento das atividades do Exodus International em 2013, o presidente Alan Chambers publicou um pedido público de desculpas por todo o dano causado pela sua organização ao longo dos anos.
[54] Uma versão anterior deste texto, dizia que alguém que se acha atraído(a) apenas pelo(a) cônjuge é “monossexual” – foi uma incompreensão minha e um uso equivocado do termo: em contraposição a bissexual, um indivíduo monossexual é aquele que sente atração por (e/ou se relaciona sexualmente com) apenas um sexo ou gênero – ou seja, pessoas exclusivamente homossexuais ou heterossexuais (respectivamente, os extremos 0 e 6 na escala Kinsey).
[55] Este texto explica um pouco as múltiplas formas de atração que as pessoas podem experimentar, em maior ou menor grau (ou não) – e uma deles refere-se justamente ao aspecto romântico individual, que pode (de forma análoga mas independente da orientação sexual) se inclinar de modo hétero, homo ou birromântico. Então, além da possibilidade de que alguém que se atraia pelo mesmo sexo e seja casado(a) desenvolva algum desejo sexual por seu(sua) cônjuge do sexo oposto, deve-se levar em conta também que ele(a) talvez já tivesse em si alguma atração romântica por pessoas do sexo oposto. · Enquanto isso, dados levantados entre os usuários do app de relacionamentos OkCupid (no ano de 2009 e em inglês) indicaram que muitas pessoas dão mais atenção a quem demonstra compartilhar interesses e valores, do que apenas elogios à aparência física.
[56] A autora católica Melinda Selmys conclui um belo texto no Spiritual Friendship (um riquísimo site em inglês iniciado por Ron Belgau junto com Wesley Hill) com este e outros pensamentos riquíssimos, ao comparar a busca da mudança de orientação com os casamentos de orientação mista.
[57] Mike Allen descreve-se como um homem gay casado com uma mulher; nesta postagem (também no Spiritual Friendship), ele junta o seu relato ao de um amigo, para refletir se às vezes a ênfase no celibato em detrimento do casamento é exagerada, com o primeiro eclipsando o segundo em muitas das conversas que ele acompanha.
[58] Aqui estão dois textos em inglês dos mórmons que usam a expressão same-gender attraction: o do élder Jeffrey Holland traz um tom dialogal, pastoral e acolhedor, conta histórias de jovens que buscaram seu conselho, esclarece que nem todos podem ficar livres da atração pelo mesmo gênero nesta vida, e foca-se em auxiliar as pessoas e seus familiares e amigos; já o élder Dallin Oaks pronunciou-se em caráter mais doutrinário (e severo), e sublinha a diferença entre os reprováveis tanto comportamento quanto o usar os adjetivos homossexual/lésbica/gay ❝como substantivos para identificar condições particulares ou pessoas específicas❞, dos ❝pensamentos e sentimentos (que devem ser resistidos e redirecionados)❞. • De outro lado, vindo de um pano de fundo católico (e brasileiro), Mateus Silva* publicou um punhado de posts, breve e profundos, no agora inativo Framboise & Grenade – onde ele escreveu sobre seu “desvio de afetividade.
[59] Willy Torresin é um bom exemplo nesse sentido: anteriormente à frente do Exodus Brasil (que ainda distribui seu livro Quem sou eu? Como o Evangelho Completo devolve a verdadeira identidade), sua abordagem cristocêntrica enfatiza o sermos antes seres espirituais do que sexuais. Por isso mesmo ele menospreza um esquema como o dos Lados – que ele considera antropocêntrico por focar de uma forma ou de outra nos comportamentos ou sentimentos sexuais em si, ao invés de na relação plena com Deus. Seu ministério, Paz Com Deus, oferece também um “Curso para Famílias” (gratuito) – onde, de acordo com a apostila em PDF, são também oferecidas orientações para pais e mães quando o(a) filho(a) ❝não quer ajuda para crescer emocionalmente e deixar para trás a homoafetividade❞ (após identificar a morte espiritual como “o verdadeiro problema” por trás dela).
[60] Rosaria Butterfield afirma que a orientação sexual não é um conceito útil para os cristãos e reforça a importância de se dissociar as ações de uma pessoa de quem ela é. Portando uma visão reformada e em discordância declarada da posição católica, ela e outros também defendem que o próprio desejo homossexual, mesmo que involuntário, já é pecado (especificamente, o da concupiscência) – e portanto não deve ser redirecionado e sublimado, mas abordado firmemente com arrependimento e mortificação. Em um número significativo de textos que escreveu, Rosaria coloca os Lados A e B no mesmo balaio, fazendo a previsão que muitos do segundo grupo cairão para o primeiro; e assim, distancia-se de ambos. Em contrapartida, ela freqüentemente é vista como persona non grata para muitos cristãos que se afirmam como LGBTQ+, até agrupada com expoentes do movimento ex-gay.
[61] Abraão Rosa, um dos autores no Vivendo em Comunhão, produziu um excelente texto em duas partes, intitulado “Devo esperar uma ‘libertação’ da homossexualidade?”. Recomendo fortemente esta leitura (outro bom artigo nessa mesma linha é um de Nick Roen, já traduzido ao português por Igor Sabino).
[62] O apostolado tem presença nacional através do Courage Brasil, com parte de sua metodologia inspirada nos Alcoólicos Anônimos (A.A.), e conta também com atuação virtual e presencial.
[63] No Brasil, há iniciativas evangélicas que se comportam de maneira similar; umas delas é o Íris Projeto (que atua principalmente no Instagram e no WhatsApp): embora encoraje os valores bíblicos da castidade e do casamento (e assim às vezes aproxima-se dos Lados B e Y)… também recebe de braços abertos vários testemunhos de libertação da homossexualidadeneon blob dead – ao mesmo tempo que observa-se um esforço consciente e cuidadoso para mostrar distância de palavrões como “cura gay”. São movimentos cujo discurso tipicamente centra-se na “identidade de filho(a) de Deus”, em forte oposição a abraçar uma (ou qualquer) identidade LGBTQ+ baseada em sexualidade e gênero.
[64] Como Papa Bento XVI, Joseph Ratzinger pronunciou-se repetidas vezes com um tom fortemente conservador, em particular contra pessoas homossexuais e transexuais – causando furor na comunidade LGBT, especialmente católicos. Ele se opunha (e ainda se opõe) de forma ferrenha contra o casamento gay – já chegou a dizer que é uma ameaça tão grave à humanidade quanto a mudança climática planetária. Uma de suas medidas mais criticadas foi barrar homossexuais do sacerdócio (mesmo que os beatos tivessem optado pelo celibato).
[65] Aproveito o momento para citar os Your Other Brothers (ou YOB; traduz-se como “Seus Outros Irmãos” – e cada brother é um “yobber”), uma iniciativa de Tom Zuniga e seus parças. Eles contam com podcasts e vídeos, um grupo fechado no Facebook exclusivo para apoiadores, bem como um blog aberto ao público com artigos regulares (recomendo também acompanhar as discussões dos posts pelo fórum de comentários no Disqus. A ideia é compartilhar histórias pessoais e ajudar rapazes cristãos a ❝navegar fé, homossexualidade e masculinidade – juntos❞. No geral eles afirmam seguir a ética sexual do Lado B (ou uma versão mais “suave” dela); e há um esforço para dialogar construtivamente com as outras posições (por exemplo, dois episódios recentes do podcast público falou-se sobre amizade com hermanos do Lado A). O blog já teve seus momentos de intensa controvérsia, como um artigo que ousou discutir ereções de forma leve (alguns diriam leviana; mais tarde, texto e autor desapareceram do site), e outro(s) que incentiva(m) a nudez comunal e a intimidade física (mas não sexual, na teoria) entre dois caras cristãos com AMS porém abstêmios. Outros, mais felizes, fizeram excelentes reflexões sobre o filme Love, Simon e considerações sobre as parcerias dos bros célibes – repito e insisto, sempre confira os comentários: rolam insights produtivíssimos por ali.
[66] Opto por não escancarar seus nomes reais. O desfecho da dupla de “celibridades” (melhor seria dizer abstinência pré-marital ao invés de celibato, né), lê-se neste post derradeiro (arquivado pelo Internet Archive).
[67] Sarah e Lindsey blogavam ativamente desde 2014, e pararam em 2017; felizmente, o site A Queer Calling ainda está online. Nas respostas a cada uma das “Perguntas Freqüentes” elas dão uma visão geral sobre vários questionamentos feitos a elas e como elas entendem seu chamado ao celibato, enquanto que em outras duas postagens as autoras se esforçam por explicar como entendem (e vivenciam) sua vocação conjunta. Vale a pena ver de novo e de novo!
[68] Bem recentemente, no ano de 2019 (e desde 2011), a LifeWay Research entrevistou diversos pastores protestantes nos Estados Unidos por telefone, e perguntou-lhes sua opinião sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A resposta de quase ¼ deles foi: ❝Não vejo nada de errado com duas pessoas do mesmo gênero se casarem❞ – e ao redor de ⅓ disseram o mesmo sobre uniões civis homoafetivas (deve ser levado em conta que a Suprema Corte dos EUA aprovou o casamento gay em anos recentes). Outros dados interessantes são que, destes evangélicos tradicionais, os que mais provavelmente responderão que tá tudo beleza são: presbiterianos ou reformados (49%), metodistas (47%), luteranos (35%) e das Igrejas de Cristo/Cristãs (20%), comparados a batistas (3%) e pentecostais (1%) – o que levou este outro portal a estampar esta manchete escandalosa (em inglês): “Estudo mostra que pastores calvinistas/reformados têm mais chances de aprovar o casamento gay do que outros”. • Ah, e voltando ao refrão de Lulu Santos sobre “toda forma de amor”, sempre usado pelos marqueteiros, uma ótima resposta cristã foi escrita por este pastor heterossexual.
[69] Para conhecer mais dessas vibe retrô e visão animadora da Nashville Family of Brothers, sugiro a leitura atenta das páginas “Nossos Compromissos”, “Nossa Vida” e do texto “Nós Fazemos Votos de Celibato?”, postado no blog. Além do site oficial, é possível acompanhar suas atividades nas mídias sociais pelo Facebook e também no Instagram.
[70] Alguns teóricos da teologia queer insistem em dizer que a adelfopoiese seria equivalente no cristianismo primitivo ao casamento homoafetivo da atualidade; tal alegação não procede. Em grego, adelfopoíesis ἀδελφοποίησις significa literalmente “fazer (tornar) irmãos” – é o nome da cerimônia nas igrejas ortodoxas (siríaca, grega e russa) que sela a união de duas pessoas (geralmente dois homens) numa amizade reconhecida pela Igreja; hoje em dia, ela é pouco comum e ainda menos conhecida dos cristãos de outras linhagens. Já citámos um possível par numa nota anterior: acredita-se que os mártires cristãos Sérgio e Baco teriam se unido por este rito.
[71] Aelred ou Aelredo de Rievaulx é considerado o santo patrono da amizade, com pensamentos úteis para que todos tenhamos amizades verdadeiramente boas e duradouras. Neste outro texto no Medium, meu querido amigo Reginaldo dos Santos, cristão LGBTQIAPN+ e idealizador do projeto Vivendo em Comunhão, mergulha mais fundo na definição cristã da amizade apoiado pelo pensamento de Aelredo (cujo livro, Amizade espiritual · Oração pastoral, pode ser encontrado aqui, ou aqui). Apesar de muitas vezes ter sido ignorada, a amizade é uma virtude cristã fundamental – mas não é preciso ser um cristão para saber disso: um rapaz que troca cartas online com uma moça descreve (em inglês) a sua penpal virtual assim: ❝Não, ela não é minha cara-metade, e também não é minha melhor amiga. Mas ela é muito especial. (…)❞
[72] Andréa Vargas (também conhecida como a musa brazuca do Lado Y) vem, ao longo de vários anos de estudo e aconselhamento, construindo um conceito inédito na literatura que ela batizou de “idolatria afetivo-sensorial” (IAS). Para ela, a homossexualidade e outras situações em que os afetos acham-se direcionados a pecados, são sempre efeitos da Queda – o momento quando o ser humano decidiu que não queria depender de Deus dizendo-lhe o que fazer e o que não fazer. Com o afastamento do Pai, um novo ídolo necessariamente precisa ocupar o lugar vazio no coração humano – e é aí que pode acontece o impacto na sexualidade e/ou em várias outras áreas da vida de cada pessoa, cada um manifestando sua “adoração a uma coisa ao invés do Creador” a seu modo. Andréa explora esta metodologia no seu curso sobre sexualidade ministrado pelo Avalanche (confira os links na seção de recursos selecionados logo mais abaixo; aqui e aqui, você encontra duas apostilas dela), e planeja submetê-las aos meio acadêmico e editorial no futuro próximo.
[73] Não deve ser confundido com o “outrismo”, religião fundada pelo missionário russo Ôutro Schuartz; seus adeptos tinham mais visibilidade nos tempos do Orkut (quando “cristão/outro” era opção reconhecida de filiação religiosa).
[74] Uma pesquisa do Pew Research Center, feita em 2014 nos Estados Unidos, perguntou a cristãos de diversas denominações sobre a homossexualidade ser pecado ou não; depois de apresentar os números, a matéria cita o episódio infame do Rev. Danny Cortez.
[75] Um dos primeiros livros que Andrew Marin publicou foi Love is an Orientation (algo como “O Amor como Orientação”), relatando sua missão de dialogar e levar Jesus à comunidade LGBT de Chicago; um dos achados de Marin foi que ele conseguia maior alcance quando, ao invés de chamá-los de homosexuals, ele simplesmente usava a palavra em inglês que eles preferiam: gay. Ele também blogava até 2016 no Patheos – numa das últimas postagens defende, sucinta e novamente, per che ele continua a se manter neutro: ❝Minha vocação como construtor de pontes assenta-se no não tomar partido. A história nos ensina que quando as pessoas fazem isso (e a propósito, o ativismo partidário também é uma vocação), elas perdem a credibilidade junto ao outro de estar num diálogo sustentável com esse outro.❞ Essa postura pode soar razoável na teoria, mas ao longo dos anos resultou na sua reprovação tanto de membros da comunidade LGBT quanto de religiosos conservadores.
[76] O penúltimo link da lista no começo desta página leva a um documento no intitulado “LGBTQI Christian Resource List” (“Lista de Recursos Cristãos LGBTQI”); o compilador separa suas top recomendações, em inglês, por um sistema de cores: azul para o Lado A, vermelho para o Lado B, verde para o “Lado O” / “Terceira Via”, roxo para conteúdo que discute gênero (material do Lado Y é agrupado com o Lado B ou não é explicitado; e o Lado X, é deixado de fora, como convém). Dê um bizu, você não vai se arrepender!
[77] Em inglês, Aaron Silver (que tem por blog Highly Aaronic – e não deve ser confundido com seu amigo e pseudonímico xará do Strength of His Might) apelidou os crentes do Lado B da atualidade que não pegam tão pesado nas questões de identidade e sexualidade de “Side A Lite”, um “Lado A light”. (Em inglês, a corruptela moderna lite é sempre um adjetivo, que tem o sentido de “menos complexo, uma versão menos extrema de algo”.) Ao longo de duas postagensmui abelhudas (a primeira listada logo no começo desta página), Aaron tece sua crítica com a suspeita de que movimento do Lado B na América do Norte encontra-se fortemente influenciado por este “Lado A light” da geração millenial – seus traços principais incluem: teorizações queer sobre a sexualidade humana antes da Queda; vários comportamentos afetivos e sociais não-heteronormativos; uma supervalorização da transgenereidade e da cultura queer; expressões nos meios virtual e presencial vistas como não-virtuosas para um cristão; e acrescenta, no segundo post, que as pessoas nesta sua categoria ❝não consideram a posição do Lado A como espiritualmente perigosa e devastadora❞, e assim topam tranqüilamente ter comunhão com a galera que é Lado A pra valer. · Nick Roen foi outro blogueiro que, expressando a mesma preocupação, dissidiu do rótulo de Lado B, por perceber que dentro do movimento atual convive um leque diversificado e diversificante de crenças – o que causa problemas na percepção pública de quem se afirma “Lado B” nos Estados Unidos, crucialmente: você pode ser enxergado(a) como alguém que endossa, em algum nível, um cristianismo mais liberal..
[78] Este artigo acadêmico (em português) oferece uma caracterização pormenorizada dos g0ys (e diferencia-os dos “gouines e dos bissexuais); este outro trabalho (arquivado) se propõe a contrastar os valores de g0ys versus gays, a distinguir os dois grupos. Os g0ys utilizam-se de certa interpretação judaica de que a prática condenada em Levítico 18.22 e 20.13 é a penetração anal, conforme documento da Rabbinical Assembly (depois, repostado); eles também podem usar alguns números – interessantes, mas coletados de forma pouco científica em grupos online ditos “ex-gay”) para encorajar homens homo e bissexuais a abandonar o ato penetrativo anal. Finalmente, estes dois autores, um cristão e outro secular, oferecem suas críticas ao movimento (em inglês). É muito desanimador constatar que, especialmente no Brasil, a “filosofia g0y essencialmente encoraja a “pegação” e a intimidade homoerótica casual, mesmo que você seja um cabra macho “heterogoy” ou “heteroflexível” casado. Use de extrema cautela com os g0ys e seus tortuosíssimos argumentos “filosóficos” e “teológicos”; não recomendo visitar o site oficial em inglês, por conter muita pornografia açucarada e explícita.
[79] Um ministério em particular, que me foi indicado elogiosamente (e dito ser do tipo “Lado X fraco”), e que ainda está na ativa e é frutífero, chama-se Outpost Ministries, localizado em Minneapolis, MN, nos Estados Unidos. O seu trabalho procura ❝atender às necessidades de homens e mulheres que buscam liberdade das atrações indesejadas pelo mesmo sexo❞, sendo que é a ênfase na Palavra de Deus que dará início ao processo de cura e transformação rumo à nova identidade em Cristo. Diferente das abordagens do Lado Y, tem-se alvos claros no que diz respeito a restaurar a sexualidade – e confia-se que virá de Deus o poder para vencer as atrações pecaminosas; talvez isto os caracterize como uma posição “C3” razoável (tomara, oremos). Críticos do movimento, todavia, acusaram-no de causar vergonha ao extremo nos participantes para “gerar” a transformação (embora um usuário tenha comentado que não foi essa a sua experiência); no mesmo artigo, um entrevistado também narrou que outros métodos usados para alcançar a “cura gay”, algumas infelizes décadas atrás, teriam incluído eletrochoque e exorcismo..
[80] Uma curiosidade notável que venho observando é que, no Brasil, os três C’s adquiriram o status de “Lado”, como posições autônomas e em pé de igualdade com os quatro principais – fenômeno que, até onde eu saiba, é inédito no meio anglófono em que os Sides surgiram – e onde eles meramente sinaliza(va)m, de forma provisória, os “indecisos”. · Devemos isto, creo yo, às discussões entusiasmadas dos webcrentes, em especial os da Igreja Cristã Gelo e Fogo (ICGF) (virtual, funciona primariamente por interações no Twitter e no WhatsApp); vários membros se engajam em questões sociais atualíssimas e são conhecidos online, e muitos autoidentificam-se pelo uso do par de emojis “gelo (Twitter)fogo (Twitter)”. (Já houve até mesmo o episódio especial “Dentro da igreja, fora do armário” do Choque Térmico, o podcast da ICGF, dedicado à temática LGBT no meio cristão, com a participação de alguns bons nomes conhecidos na discussão.) · Um membro desta webigreja postou uma extensa thread que na época teve grande alcance, argumentando sobre seu posicionamento e explicando os Lados. Mais adiante, quando estes foram divulgados mais amplamente num episódio do podcast Conflictu sobre os Lados A, C1, B e C2, os C’s já estavam a ser reconhecidos como posicionamentos válidos em si mesmos; e o podcaster Thales Moura, no episódio seguinte, tweetou sobre as ❝sete formas de se entender homossexualidade❞ dentro da cosmovisão cristã (ou oito, se o “Lado O” também entrar na contagem). · Como diria certo personagem de Ariano Suassuna: ❝Num sei, só sei que foi assim…❞ e pensar que tudo isso começou com euzinho reutilizar o gráfico original do Aaron*, de quando ele fez um esforço para distinguir os Lados B e Y (é o terceiro texto-base em inglês) – e viralizado antes mesmo de qualquer coisa sobre os Sides existir em português sem se apelar para o Google Translate.


Seleta de leituras e recursos, recomendados ou comentados (tudinho na língua de Camões!):

[] O Vivendo em Comunhão (VEC) é uma iniciativa pioneira no Brasil, encabeçada por alguns de meus melhores amigos, que se propõe a traduzir e produzir, em português, conteúdos sobre amizade e sexualidade entre outros temas, de uma perspectiva cristã tradicional; o VEC posta regularmente no Medium e divulga seu trabalho como @vivemcomunhao nas redes sociais. Também é possível interagir com o trabalho do blog no Twitter e conversar diretamente com a equipe do VEC e com outros seguidores através do grupo de chat no Telegram (peça o link de convite por DM no Instagram).
[] Entre alguns outros, um dos melhores (e poucos bons) livros voltados para cristãos que experimentam AMS é o livro do britânico Ed Shaw, A atração por pessoas do mesmo sexo e a igreja, em que ele defende a viabilidade do celibato e relata em primeira mão sua trajetória com a igreja local onde é pastor, no trato com sua sexualidade. A obra tem uma tônica pastoral e acolhedora, que fará muito sentido para leitores(as) que se encontram nessa mesma situação – ademais, a tradução publicada pela Vida Nova está excelente; o livro também pode ser arrematado como ebook para Kindle (também achei este PDF; mas prefira comprá-lo). • También disponible en español, La iglesia y la atracción hacia el mismo sexo: La sorprendente viabilidad de la vida célibe (reseña en español / video con subtítulos / búsqueda en Google) et aussi en français, L’Église et l’attirance homosexuelle: mythes et réalités (La Maison de la Bible / Librairie Excelsis / Publications Chrétiennes).
[] Mais teologia quer você, você diz? Outra pérola da bibliografia supramencionada é o Deus é contra os homossexuais?, de Sam Allberry – outro pastor que também convive com a sua homossexualidade, e é celebridade nos círculos dos Lados B e Y. Sobre o livro em si: é alimento espiritual sólido, gostoso e digesto; ele aborda várias questões comuns, como quais termos usar, parcerias celibatárias, o celibato como chamado, a postura da igreja perante o mundo, e muito mais (saca só as primeiras páginas). Curtiste? Compre-o como ebook na Amazon; para a edição impressa, esta livraria parece ter um bom precinho (e estoque!). • También disponible en español, ¿Está Dios en contra de los gays? (Christianbook / búsqueda en Google) et aussi en français, Dieu, est-Il homophobe? (ebook sur Amazon / La Maison de la Bible / Librairie Excelsis / Publications Chrétiennes).
[] Outro livro que vale muito a pena adquirir, verdadeira peça de poesia em prosa, é o da poetisa Jackie Hill Perry, Garota gay, bom Deus (título original: Gay Girl, Good God). A autora é uma ex-homossexual, anteriormente lésbica (e promíscua), que se entregou totalmente ao Pai e hoje está muito bem casada e tem duas filhinhas, obrigada. Ela conta a sua história de forma não-linear, intensa e impactante em seu livro, ao mesmo tempo que combate o que ela chama de “o evangelho heterossexual” – cuja maior heresia é prometer um casório e a “libertação” do desejo pelo mesmo sexo, ao invés de convidar todos ao noivado com Cristo. Lançada com alarde pela conservadorona Editora Fiel, a obra tem tido uma recepção muito positiva por leitoras e leitores (psiu, espia só as primeiras páginas!). Para adquirir uma cópia física, este parece ser o melhor preço. • También disponible en español, Chica gay, Dios bueno ( frases favoritas / descarga de Scribd / ebook en Christianbook / ebook en Amazon / búsqueda en Google) et aussi en français, Jackie: Une homosexuelle découvre la bonté de Dieu (La Maison de la Bible / Librairie Excelsis / Publications Chrétiennes).
[] Andréa Vargas é um dos nomes mais conhecidos e proeminentes no Brasil, à frente do ministério Avalanche Missões Urbanas, que trabalha com sexualidade entre várias outras temáticas contemporâneas. Para os atrasildos que só ouviram falar dela agora: se você curte vídeos, um bom ponto de partida é a sua já clássica entrevista para o canal JesusCopy, ao lado dum episódio em que falou no podcast Glocal. Ela também oferecendo seu gabaritado “Curso de Sexualidade” e é ainda a atual presidente do Exodus Brasil – que, sob sua direção, vem apresentando uma posição mais próxima do Lado Y, dissociando a abordagem da entidade brasileira da má fama do fal(ec)ido Exodus International original, então sediado na América do Norte.
[] Com encontros semanais na capital mineira, na Igreja Batista da Lagoinha Savassi, o Movimento Cores é uma iniciativa que abraça as pessoas da comunidade LGBT local com uma postura caracteristicamente Lado B (e, também acolhe quem se alinhe com os Lados A e Y) – em suma, apresenta-se como inclusiva para com “todxs”. · Mesmo assim, há haters crentes ultraconservadores como Julio Severo fazem muito alarde toda vez que um movimento desses age de forma mais positiva e gentil para com as pessoas LGBT fora da igreja.
[ ⸷] Thales Moura é um jovem pesquisador brasileiro e cristão que, afirmando seu alinhamento com o Lado B e em diálogo com o Lado A, mostra ativamente a que veio no Twitter e principalmente através de seu excelente podcast Conflictu (disponível nas principais plataformas de podcasts – e, no Telegram, pré-visualize e entre no canal), onde ele se dedica, freqüentemente acompanhado de convidados, a debater a relação da igreja brasileira com indivíduos que se entendem LGBTQ+, especialmente os cristãos, entre outras problemáticas atuais; lá também são publicados com freqüência episódios que são reviews de alguns dos livros mais recentes ou relevantes para discutir cristianismo e homossexualidade. Ainda, sua dissertação de mestrado na UFG abordou a forma como, no passado recente, um ministério evangélico costumava tratar pessoas com atração pelo mesmo sexo.
[ ⸷] João Alves é um rapaz alinhado com o Lado A que cresceu numa das igrejas mais conservadoras do país, a Congregação Cristã no Brasil; ele escreve reflexões boas e significativas em seu blog Também sou cristão – Gay CCB (anteriormente hospedado no Blogspot), bem como “Textos” concisos e diretos que tratam de vários temas caros aos cristãos LGBT. Ele interage também através da página no Facebook.
[⸶ ] Junior Scheffel é, em suas palavras e acima de tudo, um filho de Deus. Após deixar a prática e a vida como homossexual afastado do Pai, ele traz sua narrativa de transformação a inspirar outros(as) na mesma luta. Sua proposta tipifica uma versão do Lado Y (que também entusiasma o fã-clube do Lado X). Por falar nestes, cabe mencionar que ele não vê valor no esquema dos Lados (que dá destaque ao reconhecer-se “gay” – atitude à qual se opõe enfaticamente, porque lhe remonta à sua vivência sexual pretérita), escolhendo centrar seu discurso na “identidade (bíblica) de filho(a) de Deus”. Sua produção inclui textos para blog e, especialmente, o testemunho autobiográfico Mundo Invertido (à venda nos formatos impresso, no site da editora, e também eletrônico por deizão · It is also available in English, Inverted World (ebook on Amazon).
[⸶ ] Identidade e Sexualidade, de Pedro Lucas Dulci, foi oferecido como um livreto de 60 páginas (um PDF gratuito, no começo; mas ainda encontrável internet afora); depois de alguma editoração, foi republicado como livro físico pela editora Monergismo, e também baratinho em formato ebook na Amazon. Tendo como autor um pastor presbiteriano muy prolífico (e estritamente alinhado com uma visão reconhecível como Lado Y), a obra contribuiu grandemente ao apresentar importantes bases teóricas para a discussão, como os conceitos de estrutura e direção; além disso, ofereceu também por EaD (em parceria com a ABC², Associação Brasileira Cristãos na Ciência) o competente curso pago “Questões de Gênero”. É muito desconfortável, porém, constatar sua negação absoluta (e devidamente maquiada) que qualquer sexualidade não-heterossexual possa ter algum valor identitário (ou algum valor aproveitável que seja) – o que encontra eco em algumas declarações de transfobia enrustida de Dulci.
[] Alguns pastores, heterossexuais e casados, destacam-se pelo esforço ativo em dialogar e acolher. O Pr. Helder Nozima provavelmente é um dos melhores, crème de la crème made in Brésil: ele faz ótimos apontamentos em seus textos, especialmente os no seu blog Reforma e Carismaneste aqui, uma boa defesa da interpretação tradicional dos “versículos do quebra-pau”; em outro, recrimina o preconceito homofóbico (de muitos crentes); já pediu indicações de líder(es) brasileiros do Lado Y (e Andréa Vargas reinou invicta); e “lacrou” de forma arrasadora com uma série de quatro tweets (vide também esta postagem) ao denunciar a hipocrisia de alguns cristãos que condenam os homossexuais mas fecham seus olhos para outros pecados graves. • Em 2020, rolou a Conferência Desigrejados, organizada pela ICGF e por Nozima – e na última palestra, “Eunucos” (sobre célibes e pessoas LGBTQIA+), o preletor convidado foi o Pr. Giovanni Alecrim dourado: ele esquivou-se de falar se a prática homossexual é pecado ou não (e assim alinha-se com o “Lado O”, em cima do muro), e preferiu repetir que todos, todas e todes precisam do amor divino – que ele vê inegavelmente presente tanto nas relações homoafetivas, quanto como um chamado urgente para os cristãos, em seu curso e série de textos “Entender e acolher: Doze estudos sobre igreja e homoafetividade” (ele parece ter recentemente mudado seu tom para com os homossexuais); Alecrim marca presença na blogosfera e mídias sociais, especialmente nas redes Medium, Telegram e Twitter, bem como com seu podcast Café com Alecrim (no qual ele já falou dos Lados, apud Conflictu; e também já entrevistou uma conhecida pastora trans). • Outra figura que merece menção é o Rev. Caio Fábio, que tem um filho gay e desde os anos 90 responde a perguntas e também posta vídeos, sobre homossexualidade e outras questões espinhosas; ele já meteu-se em inúmeras tretas – a ponto de ser taxado de herege com regularidade e malquisto por lideranças conservadoras.
[] Todo um capítulo de uma das obras magnas do teólogo e pregador da Igreja de Cristo Álvaro Pestana, Sempre Me Perguntam!, é dedicado a responder de uma vez por todas se são pecaminosos os atos homossexuais. Sua argumentação, ao mesmo tempo profunda e acessível, está firmemente ancorada nas línguas bíblicas originais (grego e hebraico) – e está disponível para visualização parcial pelo Google Livros (inicia na pág. 259; na edição antiga que foi digitalizada, ainda aparecia como “homossexualismo”). Se você se interessar, é possível conferir, nesta página antiga, o índice com todas as perguntas abordadas no livro – que pode ser adquirido junto à editora ou autografado diretamente com o autor através de sua plataforma EaD (na barra lateral esquerda).
[] Sentiu falta de algum nome aqui? Fique à vontade para me mandar mensagem com a sua indicação. (Dúzias deles estão perdidos no meio das notas de rodapé logo acima; tente o comando Ctrl+F ou ⌘F para ver se está lá.) · O critério número um é que precisa ser um recurso em português (seja original ou traduzido). · Fora isto, se não citei alguém: ou é porque não conheço beeem ou não formei opinião sobre a pessoa ou entidade; ou então, porque de fato não aprecio suficientemente (ou em absoluto) seu trabalho para citá-los.

Link curto para este texto:
https://bit.ly/4Lados
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AVISO IMPORTANTE: Não abordei ou me aprofundei em certos tópicos de sexualidade relevantes à discussão (como: assexualidade, multissexualidade, pansexualidade; pessoas trans, intersexo, não-bináries, e mais; poliamoria e relacionamentos abertos; pornografia e masturbação; entre tantos outros) porque acredito não ter a expertise necessária para escrever sobre eles com propriedade. · A postagem continua a receber polimento por algum tempo; conto com as sugestões, críticas e contribuições de você, leitor(a) querido(a), para melhorá-la ainda mais. E agradeço a sua paciência por ter me acompanhado inté aqui.

SE VOCÊ QUE ESTÁ LENDO É HETEROSSEXUAL:
PLEASE, APROCHEGUE-SE E TOCA AQUI.

Antes de mais nada, a mais sincera gratidão pelos seus tempo e interesse; eu e meus parças esperamos ter contribuído. Tá, daí tu te perguntas: “E agora, o que eu faço?” O primeiro passo você já deu, você veio aqui (e por favor, não pare por aqui). O passo seguinte é o mais difícil e corajoso: escutar.
Prestenção ao seu redor, a quem está nos seus ambientes de trabalho e de estudo, na sua igreja, na sua família. E tente não emitir (nem nutrir) julgamentos enlatados sobre o viadinho Fulano ou a sapatão Beltrana. Ao invés disso, convide-os para assistir um seriado na sua casa (ou você na deles), para partir o pão e repartir um cappuccino, açaí ou sorvete… mostre a eles que você os ama – e conforme você for mostrando que genuinamente se importa com as vidas deles, eles poderão se abrir com você.
Acima de tudo, quer você concorde com as opiniões e estilo de vida deles ou não, lembre-se que eles não são diferentes de você: eles sendo adultos, têm liberdade tanto quanto você para escolherem comer de qual árvore quiserem (se nem Deus impediu, por que nós achamos que podemos?); eles são pecadores que precisam de Deus tanto quanto você, só os pecados são um pouco diferentes; e Deus os ama tanto quanto você, porque Ele ama toda gente exatamente igual.
Seja Jesus para eles. «Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.»

Linhas de raciocínio – Um Sábado QualquerCan’t understand Portuguese? You should be reading this comic in English.
Vous ne comprenez pas le portugais? Cliquez ici pour lire ceci en français.

Nota do autor deste blog:

Sou um cristão não-denominacional, biólogo e botânico, tradutor e professor de idiomas, um tanto nerd e leitor voraz, entre outras coisas; e creio ser um dos principais divulgadores do esquema dos Lados (Sides) na Terra Brasilis. Minha formação acadêmica como taxonomista (o cientista responsável por dar aqueles nomes em latim para novos organismos e que fazem muito vestibulando e concurseiro arrancar os cabelos), cristalizou minha paixão por categorias e a tentativa de defini-las e de alocar nelas as coisas, situações e pessoas.

Meu principal objetivo ao trazer este texto é mostrar aos irmãos e irmãs falantes de português, que “reler a Bíblia como um ‘entendido’ ” ou “você precisa virar heterossexual” NÃO são as únicas formas que temos para abordar a homossexualidade como cristãos.

Quero ressaltar que as categorias dos Lados não devem ser tomadas por definitivas, muito menos dogmáticas; elas foram criadas pela e na cristandade dos Estados Unidos – não se encaixando de forma perfeita à realidade brasileira, muitíssimo diversa tanto religiosa quanto culturalmente da norte-americana.

Mesmo assim, acredito que os Lados constituem uma ferramenta teórica útil, que pode ser empregada, debatida, e até rebatida em parte; mas que pode nos ajudar a entender em que pé estamos e como podemos debater com os que têm opiniões similares ou distintas das nossas.

Não que sejamos capazes por nós mesmos de ter algum pensamento, como de nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus. Ele é que nos fez aptos para ser ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica.2 Coríntios 3.5-6

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Star TrekSara’: peHotlh ’ej HIjatlh!C-3PO